AS OBRAS
A CASA DE ÁSTERION
Marc do Nascimento
2026
Instalação
A “Casa de Astérion” é uma instalação virtual labiríntica. Nela, o “espectador” poderá percorrer seus corredores transparentes repletos de móveis usualmente utilizados em salas de espera.
Ela foi inspirada no mito do Labirinto do Minotauro de Creta. O espaço lendário teria sido a morada de uma criatura, com corpo de homem e cabeça de touro. De tempos em tempos jovens atenienses adentravam a habitação do monstro e eram devorados. Na obra aqui proposta, procurei explorar a expectativa e a ansiedade característicos do caminhar em um percurso desconhecido e sombrio associadas a ansiedade e expectativa característicos também da vida contemporânea virtual, onde tudo aparenta ser imediato e simultâneo.
A LUA DE KIBIRA
bruCa teiXeira
2026
Objeto especulativo
Paisagem lunar especulativa, A Lua de Kibira (2026) representa um espaço de negociação entre intenções humanas e agências não-humanas, no qual organismos vivos, ativos sintéticos, tecnologia laboratorial e condições ambientais — como umidade, temperatura e luminosidade — atuaram conjuntamente na produção de sua forma. O território especulativo Kibira do Vale do Eté é compreendido pela artista como uma localidade hormonal que vincula a noção de ecologia à plasticidade corporal transmasculina. Diferente de abordagens que tratam o transgênero como identidade ou representação, esta pesquisa em arte investiga a experiência transmasculina como uma operação formal situada, capaz de produzir mundos materiais no interior de uma bioficção artística. Dito isso, só nos resta questionar: quem fabricou, afinal, a lua de Kibira? Os organismos que se desenvolveram durante o seu cultivo — colônias de bactérias e fungos manejadas a partir de vestígios transmasculinos da artista —, definitivamente, introduzem uma inflexão decisiva na autoria da obra. Embora o gesto inicial seja humano, a dinâmica de crescimento dessas colônias escapou ao controle da artista, passando a responder a lógicas próprias de convivência. Aos poucos fomos percebendo que nesse processo, a autoria humanoide deixou de ser domínio sobre a forma para ser uma condição relacional com a forma, como quem faz as primeiras apresentações em uma festa e, depois disso, deixa que os encontros sigam por conta própria. Estamos convencidas de que a lua kibiriana não foi fabricada por uma origem soberana — não é obra de Deus (artista), nem resultado de um evento fundador absoluto como o Big Bang (laboratório). Ela se constitui como um espaço de negociação contínua entre intenções humanas e agências não-humanas, no qual organismos vivos, ativos sintéticos, tecnologia laboratorial e condições ambientais (umidade, temperatura, luminosidade) participaram ativamente da produção da sua forma. Essa relação encontra eco no território kibiriano como um todo, no qual o artificial não aparece como correção de uma natureza supostamente defeituosa, mas como parte integrante de sua plasticidade evolutiva. Desse modo, A Lua de Kibira pode ser compreendida, quiçá, como um ensaio trans, cientificamente poético, que opera em favor de uma ecologia de coautorias.
A VOLTA DO ANZOL / THE BEND OF THE HOOK
Fredé CF
2025
Arte Transmídia
A obra “A volta do anzol / The bend of the hook”, de Fredé CF, é uma obra transmídia poético-filosófica que se desdobra na era “Pós-MekHanTrop(IA)”, logo após o colapso global das redes digitais causado por um enorme apagão — evento ocorrido no universo de “MekHanTropia”, criado e desenvolvido pelo autor desde seu doutoramento. Fragmentado, fantástico e onírico, a obra se desmembra entre um single musical, um mini-conto e um artezine.
A música (“The bend of the hook”) foi composta e gravada utilizando o smartphone e apps gratuitos, de forma “Do it yourself”, a partir de sonhos anotados pelo autor em seu “sonhário” pessoal mantido desde 2020. A criação foi feita por meio de automatismo psíquico e conta com uma ambientação sonora inspirada em música folk, psicodelia, rock progressivo, entre outras referências, adentrando o que chamo de MPB (Música Pós-Humana Brasileira). O conceito de arte onírica experimental transmidiática se materializa por meio de contrastes críticos poéticos entre o analógico e o digital, o atávico e o virtual, pensando em processos de contatos e transbordamentos dos entre lugares, tempos, passagens, fluxos, margens. O mini-conto pós-mekHanTrópico homônimo está disponível para leitura na descrição da música na plataforma bandcamp e funciona transmidiáticamente como uma lenda elétrica onírica disseminada no universo de MekHanTropia antes do colapso. Essa lenda é então transfigurada visualmente como fenômeno na pós-mekHanTrop(IA) pelo artezine, o que causa um efeito de premonição e dúvidas entre a natureza essencial do “real” e do “virtual” na diegese deste universo. O artezine (“A volta do anzol”) performa narrativamente em linguagem de quadrinhos o processo de transmutação interior de uma personagem que, em ruínas, reativa conexões com entidades transdimensionais e forças arquetípicas esquecidas naquele contexto futurista obscuro pré-colapso, tecendo intersecções entre as Realidades “Validada, Virtual e Vegetal” propostas por Roy Ascott (2003) como “3RVs”. Nesta travessia transbinária entre as nuances do caos e do renascimento, após a queda do binarismo mekHanTrópico, ressonâncias poéticas com mitos e entidades como a Fênix, Exu Caveira, Rosa Caveira, o Lobisomem e o Cão Breu — além do Arcano XVI do Tarot, “A Torre”, símbolo do colapso necessário e repentino para que a luz possa então emergir – vem à tona. Para a criação dos desenhos da narrativa, foram criados esboços de desenhos baseados em sonhos neste período e, posteriormente, trabalhados quadro a quadro em softwares de Inteligência Artificial de maneira experimental.
ADBDY
Raul Dotto Rosa
2022
Objeto
O argumento de ADbdy perpassa as experiências vivenciadas no cotidiano, permitindo refletir sobre a incorporação de processos de automação por sistemas inteligentes na vida diária, como o reconhecimento facial em smartphones, que autoriza o desbloqueio da tela sem o uso das mãos. O mundo que nos cerca é conectado e transforma os modos tradicionais de nos relacionarmos com os objetos, com a sociedade e com nós mesmos. Penso em minha imagem, no “eu” que incorpora tais desenvolvimentos técnicos e produz pensamento. Penso no mundo que conheço — talvez ficcional —, construído a partir das percepções cotidianas elaboradas com base na informação apreendida pelo corpo. Vejo um mundo e sinto sua fisicalidade na pele. A digitação constante para comunicação, a digitalização do rosto para ser visto e lembrado e a conectividade contínua influenciam a construção do “eu” e modificam o corpo, ampliando os sentidos e configurando uma noção de corporeidade contemporânea.
AFLUENTES
1mpar
2023
Instalação
Neste momento atual onde a sociedade está cada vez mais dividida e separada em lados opostos e dissonantes, gostaria de propor um trabalho onde a cooperação entre diferentes tem por objetivo um resultado coletivo; onde cada participante tenha o seu valor reconhecido, independente de qualquer característica física ou psicológica. Uma combinação entre indivíduos onde todos tem a mesma importância; onde o ritmo do batimento de cada coração cria um fluxo de sons e imagens que deságuam em novos padrões visuais e sonoros, criando uma obra essencialmente participativa. Esta obra é também a continuação de um trabalho produzido em 2015 utilizando a técnica da cimática, porém aqui utilizada de maneira completamente distinta.
ÁGUAS E VOZES: VÍDEOS CANDEIAS E NÃO SÃO SÓ PALAVRAS.
Lucia Vignoli
2015
Vídeo
Um passeio sonoro constituindo uma paisagem em ondas para não deixar apagar a chama, a memória viva.
AKURA
Públio
2023
Instalação 3D
Tecnologia é matéria orgânica
ALOTROPIA DO CARBONO
Sergio Augusto Medeiros
2025-2026
Instalação Digital; Modelagem em 3D
Este projeto toma como ponto de partida a descoberta de 1985 em quepesquisadores conduziram experimentos de vaporização de grafite com pulsos delaser em uma atmosfera de gás hélio de alta densidade. Nesse procedimento, hastes de grafite foram irradiadas com laser, gerando um fluxo (jet) de átomose aglomerados de carbono em alta energia. À medida que esse fluxo se expandia eresfriava, os átomos de carbono agregavam-se espontaneamente em agregados detamanhos distintos. Entre esses agregados, identificou-se uma molécula compostapor exatamente sessenta átomos de carbono (C₆₀), organizados em uma estruturafechada e altamente simétrica. Essa configuração molecular é estável em razãode sua geometria regular, formada por faces pentagonais e hexagonais conectadaspor ligações covalentes. Em Alotropia do Carbono, modelos molecularesampliados que representam distintas configurações dessa alotropia sãoreadaptados e reconstituídos digitalmente em um ambiente computacional online.
ÂMBAR
Giovanna Pizzini
2025
Bioarte
Âmbar surge a partir da residência artística realizada em 2025 no Instituto Arte e Ciência de Itu, em diálogo direto com o acervo geológico, com processos laboratoriais e com a experiência cotidiana de convivência entre arte, ciência e tempo profundo. O trabalho nasce do desejo de capturar vestígios, não como tentativa de fixar a memória, mas como gesto de atenção aos rastros que resistem ao desaparecimento. Os tecidos apresentados na instalação são resultado de frotagens realizadas sobre rochas de varvito, formações sedimentares glaciais compostas por camadas rítmicas que registram ciclos anuais de deposição. As frotagens foram feitas com giz pastel cerâmico ecológico e carvão vegetal, materiais que reforçam a relação entre inscrição, desgaste e matéria mineral. Essas superfícies funcionam como impressões diretas do tempo, onde a memória não é narrada, mas inscrita materialmente. Cada marca, textura e variação tonal carrega a presença de um passado geológico que atravessa o presente da obra.
ANXIOUS TURBULENCE
Adrian Oregon
2024
Videoarte
A videoarte que estou apresentando expõe uma narrativa particular, que segundo Lucas Bambozzi, por meio do vídeo, esse suporte, permite que o artista adquira uma liberdade para falar sobre uma infinidade de assuntos, desde alguma vivência, inquietude, entre outros. A ideia para elaborar a minha videoarte “Anxious Turbulence” surge a princípio da ação de locomover-se, esse ato que empreguei no meu curta-metragem também do mesmo ano e que neste novo trabalho artístico procuro explorá-lo, contudo atribuindo neste simples movimento, uma ampla carga de tensões e de questões que adentram e perpassam o meu interior, como também situações conectadas pelo excesso de informações que bombardeiam-me no cotidiano. A obra busca conduzir-nos para uma atmosfera psíquica e de reflexões, apresentando as interferências dessas questões perturbadoras que adentram e que transitam dentro do indivíduo, interferências essas que, segundo Almir Almas, compreende como uma ferramenta que busca quebrar esta imagem figurativa, sobrecarregando-o a ponto de deletá-lo da realidade, tornando-o invisível e distorcido ao longo da sua vivência em virtude desses atravessamentos que assumem muitas vezes o controle da situação.
APAIXONADA
Efe Godoy
2026
Ilustração/video IA
Esta animação nasce de uma aquarela autoral e se desdobra através da inteligência artificial como um gesto de continuidade, não de substituição. O ponto de partida é o corpo sensível da pintura: manchas diluídas, contornos imprecisos, camadas que respiram o tempo da água sobre o papel. Na imagem, flores que não são apenas flores. Elas carregam olhos olhos que não observam o mundo exterior, mas parecem olhar para dentro, ou talvez sustentar um estado de vigília silenciosa. São presenças híbridas: entre o botânico e o humano, entre o sonho e a memória. Não há rostos completos, não há narrativas explícitas. Há fragmentos de consciência. Ao transformar essa aquarela em animação por meio da IA, o trabalho investiga a ideia de imagem viva: aquilo que pulsa sem se mover totalmente, que se altera sem perder sua origem. A tecnologia entra como uma extensão do gesto artístico um segundo fôlego para a imagem permitindo que ela oscile, respire, pisque, quase pense.
ARTIFÍCIOS VISUAIS E DIGITAIS: “É ASSIM QUE EU PENSO, É ASSIM QUE EU SINTO, É ASSIM QUE EU PINTO: VAN GOGH!”
Regilan Deusamar
2009
Instalação
“É assim que eu penso, é assim que eu sinto, é assim que eu pinto: van Gogh!” em Cartas a Theo. A força expressiva e humana dessa frase incentivou a realização teatral e cenográfica desta proposta. A intensidade do labor artístico de van Gogh se constituiu como uma referência de expressão para a realização de vestes que em si manifestassem a força das cores. Cores experimentadas com pincel e tinta sobre tecidos, mas também cores experimentadas na tela do computador, com os pincéis do Photoshop, sobre as fotografias dos ensaios com os atores. Imagens de expressão corporal e pictórica reunidas nas pranchas de desenho e no figurino exposto sobre o manequim criando um ambiente cenográfico que reúne arte têxtil e arte digital. Ambas as formas artísticas agenciadas e agenciadoras de cores quentes, que seduziram van Gogh e seguem nutrindo nossos corações e mentes, constantemente sedentos de arte e expressão.
ARTISTA ANIMADO
Washington da Selva
2020
Webarte
Na webarte “Artista Animado”, o sutil movimento respiratório denuncia a precarização do artista brasileiro no cenário contemporâneo. No ambiente digital, o descanso é um luxo inacessível; o artista é compelido a uma produtividade ininterrupta para manter-se visível aos algoritmos. O “trabalho sentado”, não é apenas uma posição física, mas uma condição de classe do novo proletariado digital. Ao mimetizar a imobilidade produtiva do trabalhador digital, a obra questiona: o artista está vivo ou apenas sendo processado? O GIF torna-se, portanto, uma metáfora da exaustão: o corpo respira não apenas para viver, mas para continuar produzindo. É o sopro humano capturado na engrenagem virtual, onde a vida e o trabalho se fundem em um ciclo infinito, questionando até onde a tecnologia nos liberta ou apenas automatiza nossa fadiga.
ARTISTA CONTEMPORÂNEO OFERECE SEUS SERVIÇOS EM:
João Vilnei
2025
Performance
A ação pretende chamar a atenção para a necessidade do artista contemporâneo de divulgar seu trabalho, exigindo que ele, além de criativo, seja também marqueteiro da sua própria carreira. Essa exigência está especialmente presente nas redes sociais, com páginas e perfis nos quais os artistas precisam, para sobreviver, de apresentar sua produção, dialogar com o público e fazer-se ver pelos espaços de produção. Aqui, é tudo analógico e essa é uma parte importante da ação.
ASAS DA PAISAGEM
Sílvia Guadagnini
2023-2025
Ilustração digital
As estampas originais das asas das borboletas foram substituídas por imagens do território brasileiro que sofreram tragédias climáticas ou que sofreram drásticas alterações na paisagem causadas por ação antrópica.
As três imagens da série ASAS DA PAISAGEM escolhidas para compor a exposição são de borboletas que receberam em suas asas fragmentos da paisagem retirados do Google Earth buscando um princípio de similaridade visual entre a estampa original e a do local escolhido. As imagens receberam nomes científicos fictícios que mantém o gênero e a família originais, mas o epíteto específico foi substituído por termos em latim que representam características do local que foi utilizado como estampa das asas dos insetos. Neste projeto, as imagens das borboletas carregam em suas asas a degradação do território brasileiro. As alterações na paisagem interferem diretamente na perda de espécies e nas populações desses insetos e de todos os outros seres que habitam nosso planeta. O projeto pretende despertar reflexões partindo de um pensamento ecossistêmico sobre a nossa relação com o meio, com a paisagem e todos os seres que fazem parte dela.
ASSISTENTE SONORO DE DISTANCIAMENTO URBANO
Estêvão da Fontoura e Joel Grigolo
2026
Instalação
No presente projeto a pesquisa parte de um incômodo com um dos ruídos mais comuns nas ruas da cidade atualmente: o sinal sonoro dos assistentes de estacionamento. Essa tecnologia, que até pouco tempo atrás não existia, emite um forte sinal sonoro que se mistura aos demais ruídos provocados pelo trânsito, adensando ainda mais o caldo da poluição sonora que é característica marcante das grandes cidades.
Assim, partimos da lógica de funcionamento deste tipo de dispositivo, que traduz em som uma leitura do espaço, fornecendo à pessoa que conduz o automóvel uma informação sonora acerca da distância entre seu carro e os objetos próximos, sejam eles outro carro, uma parede ou muro, ou uma árvore. A partir da escolha dos elementos descritos anteriormente para compor a instalação, pretende-se problematizar a dócil aceitação de algo que contribui para o aumento da poluição sonora. Por décadas as pessoas estacionaram seus carros sem a necessidade de um assistente de estacionamento barulhento mas bastou surgir mais um produto cujo uso gera distinção (o meu carro é melhor do que o seu, olha como eu estaciono com facilidade) que, em nome de um mínimo conforto a mais as pessoas passaram a se sentir no direito de disparar altos ruídos no já ruidoso trânsito. Aquilo que inicialmente era utilizado apenas por caminhões, ônibus e vans escolares, justificadamente, nestes casos onde o veículo tem grande porte e seus deslocamentos muitas vezes representam perigo iminente, logo popularizou-se e se tornou moda. A que custo? Uma pessoa voltando de uma festa tarde da noite e o prédio inteiro é acordado por uma manobra que o motorista poderia fazer silenciosamente. Agora, além do ruído do motor (salvo carros elétricos), soma-se ao uso de automóveis e ao seu complexo sistema de circulação o ruído dos assistentes de estacionamento.
Nos apropriando da lógica de funcionamento deste tipo de dispositivo, propomos um totem contendo diversos sensores que “denunciará” a aproximação do público. Porém, nossos sons explorarão outros elementos da paisagem sonora urbana e, com isso, esperamos que a experiência proporcionada pela presença do público no ambiente expositivo seja lúdica, interativa, divertida, barulhenta e reflexiva.
BENZIMENTO
Cristiane Duarte e Will Figueiredo
2026
Performance
O trabalho nasce do desejo de troca, com a tecnologia computacional e as tecnologias do cuidado. Em Penzimento, o gesto não busca transcender o mundo, mas habitá-lo de outro modo. Tecidos pintados como ervas que não são ervas, palavras que ecoam rezas sem serem oração, movimentos que atravessam o ar como quem benze o pensamento adoecido — tudo compõe um rito laico onde o corpo é território sensível e a memória pulsa como matéria viva. Nesse espaço-tempo suspenso, o saber ancestral das benzedeiras encontra o feixe infravermelho do LiDAR. A luz mede, calcula, converte o gesto em nuvem de pontos. Mas o que se inscreve ali não é apenas dado: é rastro. Rastilho. Metarastílio. Um vestígio que carrega a fricção entre o orgânico e o sintético, entre a fala que protege e o algoritmo que processa. A máquina não intenciona; ela responde. Ela dança com o corpo numa coreografia de aproximações e resistências, onde cada falha da nuvem revela a impossibilidade de capturar totalmente o vivo
BHAKATITI?
Kenjiro Igarashi
2025
Instalação
A obra parte da premissa de que a constituição da identidade não ocorre de forma isolada, mas apenas a partir de um reconhecimento mútuo, isto é, de uma operação relacional que exige a presença do outro. Sem essa operação, a imagem de si não se estabiliza nem se confirma, permanecendo opaca e inacessivel. O espelho, tradicionalmente associado a uma experiência imediata de reconhecimento, é aqui deslocado de sua função habitual: a imagem refletida não se oferece como evidência, mas como resultado de uma mediação condicionada. A tecnologia atua como operador dessa condição, fazendo com que a visibilidade do reflexo dependa da coexistência de corpos no espaço e da validação recíproca dessa presença. Nesse contexto, a película de cristais líquidos polimerizados, usualmente empregada como recurso de privacidade e ocultamento em escritórios e residências, tem sua função desviada: em vez de proteger o olhar, ela passa a administrar as condições de aparecimento da imagem, estabelecendo regimes variáveis de visibilidade que vinculam o acesso ao reflexo à presença compartilhada. Assim, o dispositivo encena um processo no qual o eu só se constitui ao se ver reconhecido fora de si, revelando que a identidade não é um dado anterior, mas um efeito produzido no encontro, na confirmação externa e na dependência estrutural de uma alteridade que a torna possível.
BICHO VIRADO (TURNED ANIMAL)
Joubert Arrais
2026
videoinstalação
O solo “Virar Bicho” foi criado entre os anos de 2010 e 2011, em Lisboa (Portugal), em um contexto de criação e formação no centro em movimento (c.e.m), seguindo sendo dançado e performado nas cidades cearenses de Fortaleza e Itapipoca, e também em São Paulo (SP) e Curitiba (PR) até o ano de 2018, período antes da pandemia de covid-19. Atualmente, fez parte do laboratório de criação em dança “Dançarinar” (2023-24, Porto Iracema das Artes) e com a pesquisa de pós-doutorado “Estudos para Dançarinar” (2023-24, PPGArtes/UFC) como arquivo de criação e reperformance experimental.
[BIO]TRANSCENDÊNCIA[S]
Rebeca Maria
2025/2026
Fotografia expandida
As palavras “bio” e “BIOS” possuem definições e aplicabilidades distintas. Enquanto a primeira, de origem grega, etimologicamente, significa “vida” (comumente utilizada no âmbito das ciências biológicas), a segunda consiste no acrônimo para Basic Input/Output System (sendo este um termo técnico adotado no campo da Tecnologia da Informação). No entanto, ambas denotam sentidos congruentes, quais sejam: dar origem ou início a algo. No trabalho apresentado, a arte atuou como agente ligante entre a “bio” e “BIOS”, materializando os processos de construção (dimensão física), desconstrução e reconstrução (dimensão virtual). A etapa da construção iniciou-se mediante o contato da artista com a natureza (a saber: a vivência no tempo e espaço), sendo finalizada com a captura imagética dos elementos e seres que a integravam. A captação das imagens através da câmera de celular principiou o processo de desconstrução, concluída com a fragmentação da imagem originária (por meio de software em computador) para dar início à uma nova composição (neste momento, a etapa da reconstrução é iniciada). Durante a última etapa (a reconstrução), a nova composição é criada, mantendo-se a essência e a conexão com a imagem de origem. Desse modo, o real/físico (a “bio”) é reinterpretado/transcendido, mediante processos computacionais (e sua BIOS), resultando no irreal/intangível virtual, que representa, de forma abstrata, as forças, mistérios e espiritualismos da natureza, invisíveis aos nossos olhos (sentido da visão), mãos (sentido tátil) e à plena compreensão humana. No título do trabalho, os termos entre colchetes fazem referência à “bio” (vida) e à BIOS (Basic Input/Output System), ligados pela palavra “transcendência”, que se relaciona ao conceito e processo de concepção do presente trabalho.
BIOLEIROS E NECROLEIROS
Daniel Prazeres
2025
Vídeo Arte
A videoarte “Bioleiros e Necroleiros”, desenvolvida com inteligência artificial, investiga os contrastes entre biofilia e necrofilia nas dinâmicas urbanas contemporâneas, explorando as relações entre o humano e o não humano em seus processos constitutivos. O objetivo da obra é refletir sobre a coexistência entre espécies, tecnologias e materialidades que sustentam a vida, problematizando as tensões entre cidade e natureza. Parte-se do princípio de que a arte, ao dialogar com a natureza, pode operar de forma crítica e educativa, mobilizando uma consciência ecológica, política e emocional. Essa reflexão se dá especialmente pela articulação dos conceitos de biofilia, entendida como o amor ou afiliação com a vida, e necrofilia, compreendida como a atração pelo inerte e pela morte, revelando como ambos se manifestam nas práticas cotidianas de convivência, cuidado e destruição do habitat. A construção imagética, desenvolvida por inteligência artificial, segue a estrutura de um poema visual que traduz comportamentos biofílicos e necrofílicos em um contexto urbano sintético. O poema, escrito pelo artista, guia a obra e serve como sua espinha dorsal rítmica e conceitual. Seus versos, como “Vivemos em árvores, prédios e devaneios” e “Quem protege a vida é semeador, é Bioleiro, raiz, afeto e flor”, contrastam a figura do Bioleiro, que cultiva o afeto e a conexão com a vida, com a do Necroleiro, associado à exploração, à desconexão e à destruição do que pulsa.
BIZARRO BORBOLETARIO BOTÂNICO
Thyana Hacla
2016
Bioarte/fotografia/colagem
A série Insectoplantas habita o limiar entre ciência e fantasia, construindo uma poética do híbrido através do gesto do colecionador. Borboletas e mariposas possuem uma vida muito curta para a escala temporal humana — algumas espécies vivem apenas um dia em sua fase adulta. O colecionador retém as coisas para além de sua efemeridade. Tentamos de várias formas reter o tempo, impedir a morte das coisas e o natural apagamento das memórias. A impermanência é uma constância. Estas quimeras nascem do encontro entre a coleção de plantas e a coleção de insetos, criando seres que desafiam classificações e habitam um território do imaginário científico. A borboleta, em seu breve ciclo de vida e radical metamorfose, simboliza a transformação absoluta — o ciclo vida-morte-vida. A morte é uma grande mudança capaz de transformar por completo aquilo que se conhecia antes.
O processo criativo dialoga com a tradição dos gabinetes de curiosidades, onde a catalogação e nomenclatura tornam-se elementos fundamentais para dar veracidade ao fantástico. Como pesquisadora diante de uma nova espécie, construo ficções que se sustentam na linguagem científica, aproximando-me de referências como Walmôr Corrêa, Joan Fontcuberta e o Codex Seraphinianus. Neste trabalho, passo das mitologias do meu interior para as ficções de uma ciência imaginária.
BORDADO VERDE U.AI
Daniel Prazeres
2025
Cartografia urbana com material de reciclagem acrílico e bordado
A definição do espaço urbano é complexa, organizando-se em zonas de uso distintos como residenciais, comerciais, industriais e mistas, as quais se ramificam administrativamente a partir de um centro e desdobram-se em bairros que constroem identidades culturais e sociais próprias, refletidas no comércio, nos serviços e nos modos de vida de seus habitantes.
A presença da natureza nesta paisagem, particularmente a arborização, ultrapassa a função estética para tornar-se um elemento carregado de dinâmica política e económica, frequentemente apropriada em empreendimentos imobiliários como estratégia de valorização de mercado, um processo que distorce ou nega os seus benefícios coletivos. Deste modo, a mercantilização do espaço transforma o acesso à natureza num privilégio, restringindo-o a quem possui maior poder aquisitivo. Foi neste contexto que o Bordado Verde U.ai se propõem a mostrar, trata-se de um levantamento da dicotomia social através do mapeamento arbóreo e de palmáceas em regiões da cidade de Belo Horizonte, como o Belvedere, o Centro, a Pedreira Prado Lopes e a Cabana do Pai Tomás, um processo que se desenrolou em seis etapas interdependentes.
BROWNIAN_PEN
Felipe Vasconcelos
2024
Code-Art
A obra surge a partir do exemplo Brownian motion fornecido pela plataforma processing, que consiste em uma linha que se traça em direções aleatórias deixando um rastro intricado, cujo nome surge de um conceito da física utilizado para descrever o movimento aleatório feito por certas partículas quando suspensas num fluido. Este exemplo sofreu então uma série de adaptações para que este traçado deixasse de ser pura errância aleatória e passasse a seguir as coordenadas dos vértices de um objeto 3D, porém mantendo seu aspecto caótico. Surge assim a obra, que toma forma como uma aplicação (cuja performance foi registrada no formato de vídeo para fins expositivos), a qual pode rodar com diversos objetos 3D, representando-os como uma espécie de desenho tridimensional, dotado de um traçado expressivo que invoca a organicidade do traço manual porém revestido de idiossincrasias computacionais. Evoca-se aqui o termo “Expressionismo Computacional” de Joanna Maria Berzowska para se referir ao principal motor poético da obra, que é a vontade de explorar este lugar no qual atributos que remetem à expressividade humana são invocados por meios computacionais. Segundo a autora, o termo expressionismo descreve um modo de representação marcado pela prevalência de vetores subjetivos e passionais sobre compromissos realistas/objetivos, alcançando isso por meio de métodos como a distorção, exagero e dinamismo. Aspectos esses que também podem ser alcançados quando se “tira o computador da linha” com glitches, aleatoriedades ou exorbitando parâmetros/variáveis. A partir das leituras de Ludimilla Carvalho em “Dessarranjos maquínicos”, podemos adicionar que os glitches e a aleatoriedade rompem com a pretensa impessoalidade transparente sob a qual nossa relação com a tecnologia se assenta, desviam a máquina de um projeto racionalista sob o qual ela está assentada, nos levando a territórios que tendem a ser menos delineados, mais caóticos e assim associados a atributos mais subjetivos e passionais do que objetivos e racionais.
Ao adotar a expressividade como parâmetro principal para guiar um processo criativo em programação, o objetivo não está voltado para a determinabilidade, funcionalidade ou eficiência que pautam a programação tradicional. Um juízo artístico pode achar interessante perseguir um resultado aparentemente ilógico, encontrando sua própria forma de razão em um algoritmo baseado em erros, variáveis oscilantes, redundâncias e funções absurdas por causa do resultado estético que delas provém, trilhando assim uma relação completamente personalizada com o gesto de programar, assentada em valores pessoais outros e distintos dos habituais.
Por último, atenta-se também para as dimensões poéticas que emergem da processualidade da obra, pois a representação do objeto surge gradualmente, iniciando-se com o traçado de uma simples linha e depois assumindo uma série de configurações momentâneas durante o processo, essas tão interessantes quanto resultado final pelas lacunas e incompletudes que carregam e a relação que estabelecem com as partes tracejadas. Segundo Henrique Roscoe em “Arte Generativa como Exercício do Fora”, a incompletude deste tipo de obra contribui para ampliar a dimensão poética do trabalho gerando incerteza e expectativa, criando no espaço indefinido a latência do “Tudo pode vir a ser”.
BUDA COM RELÓGIO
Orangê ak Celso Lembi
2025
Instalação/Projeção/Programação Criativa
Buda com Relógio emerge no cruzamento entre tempo, imagem e presença. A escultura é composta exclusivamente por luz — uma projeção gerada por código — e apresenta um Buda sereno, com um relógio digital funcional inscrito no peito. Essa combinação estabelece uma tensão entre o eterno e o efêmero, entre o contemplativo e o computacional, criando um ritual óptico que reposiciona o tempo como matéria da arte. O relógio não marca a produtividade, mas o vazio, o agora contínuo e compartilhado. Inspirada pelo conceito de outretrato, a obra não retrata um sujeito interior, mas aquilo que escapa: o tempo que passa, o dado que pulsa, a luz que desaparece. Dialoga diretamente com autores como Walter Benjamin (2012), ao transformar o tempo em lampejo, com Georges Didi-Huberman (1998), ao fazer da imagem um espaço do que nos escapa, e com Maria Angélica Melendi (2007), ao tratar a imagem como corte no visível e mediação crítica.
CALEITROSCÓPICO
Rogério Barbosa e Chico Marinho
2026
Instalação de Poema Digital
A proposta surge de uma tentativa de aproximação entre alguns conceitos pré-socráticos, como a esfera de Parmênides, Spermatas (Espérmatas), de Anaxágoras e a metáfora do “rio” formulada por Heráclito com as noções modernas de pixel e átomo, isto é, uma ponte entre a filosofia, a ciência contemporânea e a criação poética. Ainda que pareça paradoxal esse encontro, é interessante observar que um átomo (unidade fundamental da matéria) e um pixel (unidade de informação visual), compreendido ambos aqui como constituintes básicos, podem se corresponder num certo plano, no qual também a palavra pode ser tomada como constituinte básico do verso. A proposta poética mantém unidade numa estrutura controlada por regras de produção. A ideia atômica do ser uno de Parmênides, representadas pela esfera como ser uno imutável, contém todas as coisas. Por outro lado, as regras de produção codificadas permitem que a diversidade flua como o rio de Heráclito. Quer dizer, o poema e o espaço de possibilidades da tela constituem ao mesmo tempo a estrutura imutável, o todo, e ao mesmo tempo permitem o movimento que transforma nas imagens formadas pelo jogo poético. Sintetizado pela metáfora do caleidoscópio, que produz a multiplicidade formas através da simetria dos espelhos e suas infinitas variações, o poema espelha a si mesmo em multiplicidades surpreendentes. Como ponto de tensão, propomos também o conceito de spermata (espérmata), de Anaxágoras, isto é, o entendimento de que o universo é constituído por minúsculas e infinitas partículas qualitativamente diferentes, a que ele designava como “sementes”. Nesse sentido, as palavras flutuantes estruturando novos sentidos trazem algo dessas sementes, porque o poema se expande, ou renasce, na medida em que muda. Em parte, o vocabulário do poema pressupõe essas mudanças internas à linguagem.
Por fim, o design visual do poema digital materializa alguns desses pressupostos, na medida em que se materializa na tela ante as interações físicas dos interatores. Além desse poema central, produziremos pequenos vídeos/semas que se comportarão como as sementes de Anaxágoras.
CAMINHO SE FAZ CAMINHANDO
Ana Paula Lourenço
2024
Pintura
A artista coleta materiais que são potenciais suportes para pinturas durante suas jornadas pelas ruas e emergem do exercício de observação atenta àquilo que lhe é familiar, embora ausente ou não aparente. Ao caminhar, imerge uma investigação por vestígios partilhados, processo que confere fôlego à criação com a profusão de cores que se revela ao virar o quarteirão. Dessas esquinas e canteiros, memórias esquecidas são resgatadas e objetos em desuso, tão breve, são transformados em arte-vida. O suporte da pintura foi coletado pelas ruas da cidade em uma ação DYI (Faça você-mesmo) Solarpunk: as hélices de um ventilador cor-de-rosa descartado na rua. A forma evoca as hélices das usinas eólicas, assim como apontam o movimento contínuo da vida. A obra se inscreve na vertente sci-fi do Solarpunk, com foco em transição energética social e ecologicamente justas. Para tal, a aliança entre arte e tecnologia adquire centralidade na cocriação de futuros habitáveis ao traçar rotas de fuga por meio da ficção científica. O Solarpunk é uma visão de futuro. Uma provocação ponderada que evoca um conjunto de propostas viáveis para chegarmos lá. Propõe soluções práticas e disponíveis no agora, e não apenas campanhas de conscientização. A obra Se faz caminho caminhando se concretiza como exercício de especulação aplicado às florestas tropicais, com inspiração na corrente sci-fi do Solarpunk: um movimento contracultural, ético e estético, que se escoa por diferentes frestas: nas artes visuais, arquitetura, moda, literatura, cinema e em ativismos especulativos.
CAMPOS ELÍSEOS
1mpar
2019
Instalação
O projeto teve início a partir dos conceitos de autonomia e vida artificial. Seres autônomos são aqueles que conseguem controlar suas entradas e saídas em trocas dinâmicas e estáveis. Este conceito está dentro de estudos na área da Cibernética feitos a partir da metade do século XX, por autores como Norbert Wiener e Gilbert Simondon. Ao contrário dos autômatos, que são fechados a trocas e segundo estes autores tendem a desaparecer, os seres autônomos dialogam com o exterior e com ele realiza trocas constantes, de modo a se adaptar ao ambiente em que está inserido.
Baseado nestes conceitos e em um tema cada vez mais presente em nossa sociedade – a vida artificial – pensei em criar uma instalação composta de seres autônomos que utilizassem um tipo de energia limpa, e se comunicassem entre si por meio de um dialeto próprio, composto por sons característicos de cada espécie. A energia que alimenta estes seres é a luz. Porém, em vez de utilizar paineis solares, resolvi buscar outras maneiras de captar a energia luminosa (do sol ou de fontes artificiais) que me permitissem criar seres interessantes esteticamente, e não tivessem apenas um caráter funcional de acúmulo de energia para alimentar um circuito. A pesquisa iniciou-se com pesquisas na internet sobre energia solar e formas alternativas para sua captação. Os sons dos seres foram pensados de modo a ter uma relação com sua aparência, seguindo conceitos de artistas modernistas como Kandinsky e Klee, que vinculavam cada forma a um tipo de som específico. Objetos pontudos por exemplo teriam uma sonoridade mais áspera e ruidosa, enquanto os mais arredondados emitiriam sons mais suaves. As formas dos seres também têm a ver com o tipo de onda que emitem: senoidal, triangular, dente de serra, etc. O canto destes seres é esporádico e acontece em tempos aleatórios, de acordo com a programação feita para cada indivíduo. Estes têm um poder de decisão sobre o tempo, duração, intervalo e a forma melódica do seu canto. O silêncio também está presente no dia-a-dia dos seres, que passam por um período de hibernação, após deixar de ter contato com a luz por algumas horas e suas baterias se descarregarem. Entretanto, voltam à vida no dia seguinte assim que tenham acesso novamente a uma fonte de luz.
CARNAVAIS #2 – PORTA-BANDEIRAS
Will Figueiredo
2025
3D
Carnavais #2 – Porta-bandeira transcende a documentação etnográfica para propor uma arqueologia do futuro. Na obra, o corpo sagrado da porta-bandeira — guardiã da identidade comunitária e do pavilhão — é submetido a uma smartografia 3D que não busca congelar o movimento, mas libertá-lo da matéria física. A sustentaçao poética da obra reside na desintegração da imagem em uma “nuvem de pontos”: cada pixel-voxel atua como uma partícula de memória, um “meta-rastilho” luminoso de um rito ancestral. Ao situar o folguedo neste território imersivo e tecno-híbrido, a obra questiona a ontologia da presença na era digital. O giro da dança deixa de ser um evento efêmero para se tornar um monumento de dados, um “altar de luz virtual” onde a tradição não desaparece, mas transmuta-se. Neste espaço especulativo, o popular e o tecnológico deixam de ser opostos. O algoritmo torna-se o novo suporte para a mística, e a festa popular revela-se como uma tecnologia social de resistência, agora re-codificada em paisagens líquidas de bits.
CARPIDEIRA III OU POR QUEM CHORAM AS MÁQUINAS?
Ana Moravi
2025
Instalação
CARPIDEIRA III investiga o choro como acontecimento relacional e ecológico, deslocando-o da esfera psicológica e expressiva para o campo da vibração, da matéria e da escuta. A obra propõe uma máquina vulnerável, que não interpreta nem otimiza afetos, mas cria as condições materiais para que algo possa emergir — ou falhar. Por meio do contato entre sementes, superfície metálica, gesto humano e amplificação mínima, a paisagem sonora resultante oscila entre som, silêncio e ausência, instaurando uma experiência marcada pela expectativa e pela frustração sensível. A sustentação poética da obra reside na recusa da eficiência tecnológica e da resposta garantida: o choro não é representado, mas compartilhado como situação instável. Assim, CARPIDEIRA III afirma uma tecnopoética do cuidado e da escuta, na qual emoção, matéria e máquina compõem juntas uma paisagem emocional em permanente estado de emergência.
CARTOGRAFIA DE UMA ALIANÇA – DÍPTICO EM DUPLA EXPOSIÇÃO
Ana Musova
2025
Fotografia
“Cartografia de uma aliança” é um díptico em dupla exposição realizado em abril de 2025, durante a reinauguração da Galeria Claudia Andujar – Maxita Yano, em Inhotim. As imagens condensam tempo, memória e espiritualidade por meio da sobreposição como gesto poético e político. A dupla exposição é assumida como artifício — procedimento técnico consciente que explicita a construção da imagem — e não como efeito ilusório.
No retrato de Claudia Andujar, intitulado “Fortaleza, vaga-lume, flor”, a artista é envolvida pela sobreposição de uma folha e da própria galeria, compreendida como fortaleza simbólica de proteção às representações visuais indígenas. A imagem evoca sua presença como lampejo de lu(z)cidez na história Yanomami, e como força delicada, persistente como uma flor.
No retrato de Davi Kopenawa, intitulado “Asas de xamã”, a sobreposição de uma planta projeta visualmente a sugestão de asas. O nome Kopenawa significa vespa — ser alado — e a imagem convoca a dimensão xamânica como trânsito entre mundos, comunicação com os espíritos e sustentação cosmológica da floresta. As “asas” não ilustram, mas insinuam essa condição de mediador entre planos visíveis e invisíveis.
A dupla exposição opera como gesto de coexistência. Como artefato decolonial, a fotografia reinscreve alianças, espiritualidade e permanência no campo sensível da imagem, afirmando o artifício como espaço ético de construção e escuta.
CASTELOS E RUÍNAS
Marcus Vinicius Diniz
2025
Técnica Mista (Fotografia digital, tinta à base de óleo e bordado sobre papel algodão)
A pesquisa situa-se na fricção entre a promessa do horizonte e a dureza do alicerce. Investigando a construção civil não apenas como canteiro de obras, mas como arquivo de gestos sociais, o trabalho propõe um olhar crítico sobre as arquiteturas de travessia: estruturas erguidas pelo trabalho manual que, paradoxalmente, delimitam fronteiras de exclusão para quem as constrói.
O argumento central da obra reside na tensão entre o projeto de cidade, asséptico, vertical e planejado, e a cidade vivida, orgânica, horizontal e marcada pelo desgaste. Se o mapa oficial tenta organizar o território, a minha produção busca sujá-lo. Utilizo a terra, o pó de cimento, o asfalto e a viragem química (café, taninos) para corromper a nitidez da imagem técnica. A fotografia e o vídeo deixam de ser janelas transparentes para se tornarem superfícies de contato, impregnadas pela materialidade do chão que habitam.
Nesse contexto, a figura do trabalhador migrante (especialmente no fluxo Norte/Centro-Oeste) é central. O trabalho discute como o corpo que migra carrega consigo uma sabedoria manual, o saber da mão, que é explorada pela cidade, mas cuja presença é sistematicamente apagada da paisagem finalizada.
CLIMATOLOGIA IMAGINÁRIA E IDENTIDADE VISUAL: NOVA IGUAÇU VIA IA GENERATIVA
Luiz Felipe Regaço
2025/2026
Arte Generativa e Fotografia Computacional
Este trabalho estabelece uma ponte entre a memória afetiva e a reprodutibilidade sintética, utilizando a Inteligência Artificial para resgatar e expandir a identidade visual da Baixada Fluminense. O argumento central fundamenta-se no conceito de “Realismo Afetivo”: a utilização de algoritmos não para a criação de mundos puramente fantasiosos, mas para a emulação de fenômenos físicos e ópticos — como a luz da Golden Hour e a profundidade de campo — que ancoram a imagem digital no conforto da realidade sensorial humana.
“COLEÇÃO O SENTIDO DA VIDA” (THE MEANING OF LIFE SERIES)
Dr. Jr. (Getúlio Antero de Deus Júnior)
2026
Ilustração
A “Coleção O Sentido da Vida” (The Meaning of Life Series) foi elaborada um ano após uma interação intensa e exitosa com uma tríade de profissionais da área da saúde. Por mais que a poética do sentido da vida seja verdadeira para Viktor E. Frankl (1946), a vida é muito dura. Mas a vida não é dura com todos? Sim. E ela “prega” peças inesperadas quando tudo está indo tão bem, como o deslocamento do vítreo. Como se pode observar quando ocorre num dos olhos, parece que algo foi arrancado! Ah! A visão… Um mar de “tinta de lula” parece permear o “mar vítreo”. A descoberta inicia-se com o “caminho da casinha”. Mas daí, os olhos clínicos veem para além de milhares de anos-luz! A aplicação de “centenas de pontinhos” é certeira! Curiosamente, o laser “aprisiona” o inesperado, numa região onde não há luz! A vida faz sentido? E como faz. Há luz até mesmo na escuridão, como reforça Viktor Frankl nos textos “Sobre o sentido da vida” no que se refere à importância de se chamar a responsabilidade e processá-la. Ou melhor: “Dizer sim para ela – e para a vida.”.
COMENDO TERRA
Isabella Ogeda
2024
Video Performance + Bioarte
Comendo Terra inscreve-se numa zona de contato entre geofagia e antropofagia. Se a geofagia implica ingerir a terra como gesto de sobrevivência, cura ou passagem (Raul Lody), a antropofagia, tal como formulada por Oswald de Andrade no Manifesto Antropófago, propõe a incorporação do outro como operação crítica e transformadora. No vídeo, ao ingerir as cinzas do Museu Nacional, a artista não consome um objeto, mas um corpo coletivo: o museu entendido como uma conjunção de pessoas, saberes, histórias e violências acumuladas.
A obra integra o projeto transdisciplinar Primal Matter, desenvolvido a partir do incêndio que destruiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro em 2018. Trabalhando com cinzas coletadas em colaboração com a equipe forense do museu e analisadas em parceria com o departamento de química da ENS Paris, o projeto investiga a transformação da matéria como eixo conceitual e metodológico. Em Comendo Terra, a perda não é representada, mas atravessada fisiologicamente: a matéria do desastre passa pelo corpo, torna-se metabolismo, deslocando o luto para um campo material e ativo.
As cinzas deixam de ser relíquias e passam a operar como agentes, exigindo uma renegociação das relações entre memória, preservação e instituições marcadas por heranças coloniais. O trabalho dialoga com o conceito de espectralidade desenvolvido por Avery Gordon (Ghostly Matters) e com a noção de “fantasmas” e dívida histórica em Jacques Derrida (Spectres de Marx), entendendo o luto como um processo contínuo de negociação, e não de superação. Frente à impossibilidade de restauração, Comendo Terra propõe o gesto artístico como trabalho do luto (Trauerarbeit), recusando o esquecimento e afirmando a transformação como forma de resistência.
CONSUMO, ERGO SUM
Henrique Vaz
2020
Performance audiovisual
“Consumo, ergo sum” opera como um ritual de desmontagem crítica dos dogmas que sustentam a sociedade mercantil contemporânea. O trabalho investiga a metamorfose teológica do capital: a “mão invisível” do mercado assume o estatuto de divindade, o crédito torna-se graça, e o consumo, ato fundador do ser. A obra materializa essa investigação pela tensão performática entre o gesto orgânico e o sistema algorítmico. A rabeca – instrumento de tradição oral e ressonância corporal – e a voz humana são processadas, modeladas e transformadas em tempo real por sintetizadores de modelagem física e algoritmos de DSP, enquanto linhas de código são escritas e projetadas ao vivo. Esse cruzamento encena a captura da expressividade pela lógica instrumental do mercado, que traduz gestos, desejos e identidades em dados e padrões de consumo. A poética do trabalho reside nesse estado de crise dos significados: a democracia espetacularizada como circus de consenso, a política como nicho de mercado, a subjetividade reduzida a perfil de consumidor. “Consumo, ergo sum” não descreve, mas encena o mecanismo. Através do live-coding, expõe a arquitetura lógica normalmente oculta; através da manipulação sônica, evidencia a transformação do humano em mercadoria sonora. É, portanto, um ato de heresia estética: utiliza os próprios artifícios técnicos (síntese, algoritmos, projeção) para corroer a fé na naturalidade do sistema, propondo uma escuta e uma visão contaminadas pelo ruído da crítica. A obra situa-se no limiar entre o sermão e o glitch, entre a liturgia do consumo e seu colapso em tempo real.
CORPO-ALGORRITMO
Ana Claudia Marra
2025
Videodança
Corpo-Algorritmo investiga o gesto coreográfico como um território de tradução e interpretação entre o corpo humano e a inteligência artificial. O conceito central da obra é a IA como intérprete-criadora, em analogia às práticas da dança contemporânea em que intérpretes constroem a coreografia a partir de direções abertas propostas pelo coreógrafo. A obra parte da ideia de que o gesto não é fixo nem totalmente controlável, mas se transforma ao ser traduzido entre diferentes linguagens — corpo, palavra, código e imagem. O trabalho argumenta que a inteligência artificial pode ocupar um lugar ativo nos processos de criação em dança, não como ferramenta neutra ou reprodutiva, mas como agente interpretativo. A coreografia inicialmente imaginada pela artista é transformada em comandos de prompt, que funcionam como partituras abertas. A IA interpreta essas direções a partir de seus próprios parâmetros, produzindo respostas que geram deslocamentos entre intenção e resultado. Esses deslocamentos — acertos, erros e desvios — são incorporados ao processo de coreoedição, afirmando a imprevisibilidade como parte constitutiva da criação artística contemporânea.
CORPOFLOR
ALICIA TEODORO E WGNR
2026
Videoarte poética
Um dos conceitos fundamentais do trabalho é a confluência. Este nos ajuda a pensar os seres e o mundo como descentralizados, assim como os corpos sonoro-visuais da obra. Também nesse sentido, deve-se destacar a noção de erotismo como aquela que abre a possibilidade imaginária para a construção receptiva do livro. Por fim, a própria noção de livro como o lugar de expressão plástica e poética de um fazer artístico digital, o que problematiza a sua percepção de senso comum.
CORRESPONDÊNCIAS BIJETORAS INVERSAS
Fabrício Fernandino
2024
Instalação interativa
A instalação propõe um campo de ressonância entre dois regimes de mundo que se confrontam sem jamais se reconciliar plenamente — um “não diálogo” que evidencia fraturas históricas e ontológicas. De um lado, a obra evoca a lógica de devastação e controle inscrita no bombardeio genocida de uma colônia, tomando como referência o cenário contemporâneo de Gaza, onde a tecnologia da guerra se manifesta como dispositivo de gestão da vida e da morte. De outro, emerge o Kuarup, ritual indígena que reinscreve a relação entre vivos, mortos e cosmos, evocando a potência de cosmologias que concebem o mundo como tecido relacional. A correspondência “bijetora inversa” opera, assim, como metáfora de uma equivalência impossível: não há tradução plena entre violência colonial e cosmologia ancestral, mas sim um campo de tensão que revela assimetrias radicais. O trabalho não pretende
reconciliar, mas expor — tornar sensível a coexistência de mundos em conflito. As esculturas sonoras e lumínicas instauram um ambiente imersivo no qual vibrações, ritmos e intensidades luminosas produzem um espaço de escuta crítica, convocando o público a perceber as forças invisíveis que atravessam o presente.
CRIANDO PARA A POÉTICA DE ESPAÇO E TEMPO // CREATING FOR POETIC OF SPACE AND TIME
Jorge Franco
2021
Instalação interativa de escultura 3D
Esta obra materializa uma forma de expressar conhecimento Afro Atlânticos em conexão com as transformações e aprimoramentos humanos e tecnológicos.
CRIA{DO[R]}
gabe nascimento
2026
Escultura
o ciborgue foi posicionado politicamente no manifesto escrito por Donna Haraway em 1985. as expectativas em torno da superação dos limites humanos traziam também as perspectivas de um futuro mais igualitário. Haraway, bióloga, formou-se no interior do mundo científico, no qual o paradigma apontava para as possibilidades de aprimoramento do corpo humano a partir do desenvolvimento de métodos e técnicas químicas, cirúrgicas, eletrônicas, mecânicas e biológicas. os ajustes feitos ao corpo humano trazem consigo uma lógica maquínica, na qual o organismo é compreendido como um mecanismo complexo composto por partes e peças que podem ser consertadas, trocadas ou melhoradas. alguns dos sonhos do último século se tornaram, de alguma forma, realidade. hoje, em média, vivemos por mais tempo, a medicina oferece conserto para grande parte dos defeitos que possam aparecer no corpo humano. apesar disso, outro desejo está longe de se tornar realidade: os gadgets eletrônicos ou químicos anexados aos corpos não possibilitaram que as injustiças fossem rompidas, que a igualdade fosse alcançada. mais que isso, as desigualdades se tornaram mais evidentes, inclusive, devido a tais dispositivos anexados ou inseridos nos corpos. a potencialidade do ciborgue não chegou para nós, pessoas periféricas do sul global. mesmo assim, as mazelas desse ser estão presentes: a sobrecarga e exaustão são resultados da possibilidade de ultrapassar os limites humanos devido ao labor excessivo. em São Paulo, esses efeitos benéficos e maléficos são expressos na idade média do bairro Alto de Pinheiros, de 81 anos, e da Cidade Tiradentes, de 58 anos. essa desigualdade se repete ao nível global. a pós-modernidade permite que a elite viva até a velhice, à periferia resta a tentativa de sobrevivência.
CROMATISMO SOLAR- LEMBRANCAS DOS JARDINS DE GIVERNY
Maiana Nussbacher
2025
Bioarte
Através da pintura e da Realidade Aumentada a artista coloca o espectador a conversar com suas memórias vividas que passam rapidamente em pensamentos. São instantes muitas vezes perdidos no tempo e espaço. As cores que vibram e se movimentam na Realidade Aumentada nos remetem as imagens vagas que nos reconectam ao passado e ao presente. É um convite a contemplar uma experiência vivida que passou e não foi compleatmente embora.
CTRL + ALT + ADÃO
Karen Caetano e Lynn Carone
2025
Videoarte
Ctrl + Alt + Adão parte do gesto suspenso da Criação de Adão para habitar o intervalo — o instante anterior ao toque, quando o mundo ainda pode ser redesenhado. Ao preservar esse quase-contato, o vídeo desloca a centralidade do humano e abre espaço para encontros improváveis entre corpos, espécies e máquina, imaginando parentescos orgânicos, tentaculares e tecnológicos. As imagens permanecem em suspensão, como uma respiração antes da origem: um campo aberto onde tudo ainda pode ser refeito, reconectado e reencantado.
DAQUI 28 DIAS SEREMOS OUTRO E JÁ NÃO PODEREMOS NOS RECONHECER
Ambuá
2024
Bioarte
Evocando a simbologia do casulo, a fabricação de si é pensada como um processo coletivo, compreendendo a paisagem de fora não como algo alheio, mas como parte integrante da feitura do próprio corpo. Questiona-se assim a fabulação ocidental, capitalista e colonial que nomeia outras formas de vida como paisagem ou ornamento, instituindo fronteiras e percepções à serviço de diversas violências: racismo ambiental e outras violações de direitos vitais e culturais. A pesquisa nasce como desdobramento de investigações em torno das vegetalidades no espaço urbano entendido como bioma. A partir do mapeamento e coleta, o artista desenvolve uma pesquisa própria de produção de tecidos (ou peles, como prefere dizer) feitas de diversas frutas brasileiras desidratadas, forjando a simbiose do corpo com a paisagem e a impossibilidade do fabricar-se sozinho. Depois de largo tempo de testes, foi possível criar peles flexíveis e resistentes, ao ponto de serem costuradas na conformação da obra. Além da contribuição tecnológica de produção material de tecidos a partir de frutas locais, a obra convida seus interlocutor a destruí-la e digeri-la, interrogando assim radicalmente as fronteiras de compreensão dual do mundo (mente, corpo), bem como os limites estabelecidos dentro do campo da arte, onde o corpo, de mãos para trás dentro das galerias, é amortecido em nome de uma suposta compreensão “intelectual”.
A experiência promove interrogações como: 1) É possível um pensamento fora do corpo tendo em vista que toda emoção e percepção é apenas possível a partir de um ecossistema complexo formado por bactérias e outros seres? 2) Seria o “sujeito” na realidade um ecossistema?
DECOMPOSIÇÃO
Guilherme Duarte
2025
Vídeo
Há alguns anos, este corpo adentrou espaços clínicos. Foi vistoriado em cada canto, externo e internamente. Rotina que ainda continuará a acontecer, com a justificativa da monitoração e controle, caso algo apareça novamente. O primeiro acesso voluntário às imagens internas foi quando, após tratado, decidi fazer uma retrospectiva e abri o CD da ressonância que localizou o tumor. Fiquei fascinado. As imagens estáticas que constavam no diagnóstico eram apenas fragmentos de vídeos. Estes que tinham um movimento de imagens único. Com a rotina de exames, aquela memória ficou perdida. Só comecei a prestar atenção novamente nessas imagens depois de um segundo tumor. A vigilância interna dobrou. Os exames que antes eu nem fazia questão de ver ou ler, de repente, se tornaram uma âncora num mar de incertezas. A cada visita ao maquinário radiológico, tão frequente que fiz conhecidos naquele setor, era minha atenção ao sistema de exames e o que ele poderia mostrar ou não. Aprendi a identificar e ler fragmentos nas imagens e textos, portanto, aprendi a ver um pouco de mim que eu mesmo desconhecia. Imagens que anunciavam falhas, crescimentos e infecções se tornaram parte do trauma hospitalar. Apesar da constante visita a elas, ainda havia a dor de ter que revê-las e rememorar o período. Por muito tempo, ficaram no sistema do hospital, poucas pessoas às vendo, apenas eu, alguns médicos e enfermeiras, sempre com o olhar objetivo, analisando o objeto-corpo. Mas desde que vi o vídeo da primeira ressonância, revelação de um caos futuro, houve um lampejo de utilizar esses registros interiores feitos sob o olhar médico. A rotina de exames ainda não cessou, mas agora tomo outra posição. Saio da posição de paciente a ser observado e escrutinado, deitado, passivo aos raios que me ultrapassam e me leem. Me aproprio destas sequências – a quem pertenciam? Foram feitas de mim, mas nunca me senti pertencente a elas. Vídeos que decodificaram o meu corpo linearmente, mas não o caos em que eu me afundava. Agora trago o caos à superfície da imagem. Colapso iminente. Divido-me em várias partes e as recomponho em novas formas e organismos. Tangram orgânico. O que você vê não é o que é, está além. Além de mim, de você, do olhar médico. Descortino o caos do trauma. Coloco-me ao escrutínio de outros, agora não a imagem objetiva e sim a subjetiva em que a decalquei no caos. Disritmia de som e imagem formam um grotesco, irreconhecível. Sou e não sou esse ser grotesco na imagem que monto de mim. Sou um duplo, ou mais, afinal, me decompus. “[…] Foucault vê na monstruosidade uma espécie de ruído de fundo, o murmúrio incessante da Natureza, necessário como exemplo de variedade de forma ou metamorfose do protótipo, para que se torne mais visível a continuidade da espécie humana” (O Império do Grotesco, 2002, p. 55). Sou, junto ao caos – convergimos a um só ser -, esse ruído de fundo. Mas antes da necessidade da espécie humana, mesmo que no caos, torno visível a continuidade da minha própria existência.
DESPROGRAMAR PARA REPROGRAMAR: VIOLÊNCIA COLONIAL
flavia braga
2026
Instalação
O trabalho parte da reprogramação crítica de Custer’s Revenge, jogo originalmente lançado para Atari 2600, cuja mecânica se estrutura sobre a repetição explícita de um ato de violência sexual colonial. Na obra original, a personagem indígena encontra-se amarrada e impossibilitada de reação; sua presença existe apenas como alvo, sem agência, reduzida a função.
Em Desprogramar e reprogramar: violência colonial, essa lógica é interrompida não por reparação ou catarse, mas por esvaecimento. A indígena não reage, não vence, não escapa. Sua estratégia possível é tornar-se opaca, borrar-se, desaparecer parcialmente. A invisibilidade aqui não é fuga, mas forma de morte interna: um apagamento progressivo que quebra a funcionalidade da violência ao retirar-lhe o objeto.O borrão atua como eco persistente. Mesmo quando o corpo se esvai, a violência não se extingue; ela permanece como rastro, repetição e memória mecânica. A cena insiste, reinicia, retorna.
DIÁFANOS
Pablo Vieira
2025
Videoarte / Experimental
Partindo da representação do homem contemporâneo, imerso na era da informação e constantemente bombardeado por notícias, trazemos a tona duas figuras com cabeças em forma de nuvem, que dançam pelo espaço/litoral e interferem no cotidiano ao criar uma experiência capaz de suspender o tempo e envolver os transeuntes. Essas imagens, carregadas de metáforas e subjetividades, serviram como base para a criação do videoarte DIÁFANOS, que tem como objetivo sensibilizar o público para questões relacionadas ao corpo, ao tempo e à necessidade de desacelerar. Criada pelos performers Moisés Ferreira e Pablo Vieira, artistas LGBTQIAPN+, residentes da cidade do Natal e atuantes na cena artística contemporânea do estado desde 2013, exploram a linguagem da performance e do vídeo como possibilidade de ampliar as produções de artistas independentes em nosso circuito cultural.
DO DESCARTE SELVAGEM À DESTRUIÇÃO
Antonio Junior
2025
Fotografia
A fotografia pode ser compreendida como artifício na medida em que explicita um conjunto de operações técnicas e conceituais que constroem uma determinada visualidade, afastando-se da ideia de neutralidade do registro. Ao mesmo tempo, constitui-se como artefato ao assumir a condição de objeto cultural, portador de materialidade, memória e inscrição histórica, e poeticamente ela é compreendida como um espaço de suspensão entre o que foi e o que permanece, onde a imagem opera como gesto sensível de condensação do tempo, do olhar e da experiência. Nesse sentido, a fotografia não se limita a representar o mundo, mas o reinscreve a partir de afetos, silêncios e fragmentos, produzindo uma forma de conhecimento que se dá menos pela explicação e mais pela evocação.
ECOS DE LUZ EM DISPOSITIVO CINÉTICO
Adriano Gomide
2025
Instalação
Ecos de Luz em Dispositivo Cinético: Projeção, Reflexo e Instabilidade
A instalação se constrói como um organismo de luz, matéria e movimento. Um dispositivo cinético composto por discos metálicos polidos e cromados é suspenso no espaço expositivo, recebendo a projeção de um vídeo que, paradoxalmente, teve origem dentro de sua própria estrutura modular. A obra se articula, assim, como um circuito poético: a matéria gera a imagem, que retorna à matéria; a luz nasce no interior do dispositivo e se espalha novamente pelo espaço. Os vídeos projetados foram produzidos com a câmera inserida em esculturas/módulos formados pelas mesmas placas metálicas que compõem o dispositivo cinético suspenso. Nesse processo, a estrutura funcionou como um aparato óptico, convertendo-se em ambiente de captação. Suas superfícies espelhadas devolvem à câmera reflexos múltiplos, torções luminosas e fragmentos do entorno. Em certos momentos, essa interioridade se comporta como um caleidoscópio — não como efeito em si mesmo, mas como investigação perceptiva: a imagem é reorganizada segundo a própria lógica geométrica do dispositivo. Ao serem projetadas novamente sobre o conjunto, essas imagens instauram um ciclo sensorial. Os discos cromados, devido à sua alta capacidade reflexiva, recebem e dispersam o vídeo em fragmentos, lançando luz sobre as paredes e criando um campo visual instável. Como objeto suspenso, o dispositivo cinético reage às correntes de ar e à presença dos visitantes, produzindo pequenas oscilações que impedem que qualquer forma se estabilize. A imagem torna-se acontecimento, sempre em trânsito, sempre por se completar.
ECOS DEL MAR CAMBIANTE
Helena Hernández-Acuaviva, Irene Quiñonero-Puey
2025
Arte Digital
A proposta artística reside na capacidade da arte de atuar como uma ponte entre o imperceptível e o sensível. O trabalho busca materializar as mudanças silenciosas da epigenética marinha, transformando dados biológicos invisíveis em uma experiência visual. Ao focar na fragilidade da simbiose -a união entre anêmonas, peixes e algas-, a obra reflete sobre a interdependência e a ecologia integral. O objetivo poético é dotar de imagem e corpo processos microscópicos que, embora ocultos aos olhos humanos, definem o futuro dos oceanos, tornando visível o impacto das ondas de calor na memória genética da vida marinha.
ELA SONHOU COM FLORES
Giovanna Lelis Airoldi
2025
Videoarte
ela sonhou com flores é uma obra audiovisual feita a partir de dois materiais primários: uma gravação de áudio de celular de minha filha de 8 anos descrevendo seu sonho e um vídeo dela coletando folhas, galhos e flores no parque no mesmo dia. Esses dois materiais, áudio e vídeo, foram individualmente esticados e então sobrepostos. Através do recurso de timestretch, manipulação digital do áudio em que a duração é aumentada sem que haja alteração das frequências, foram criadas várias faixas a partir da mesma gravação de poucos segundos em que se ouve a frase: “eu sonhei com flores com cheiro de bebê”. Esticada e reesticada inúmeras vezes, elementos do som antes imperceptíveis – ou elementos inventados pela máquina durante o processo de processamento digital – emergem, retirando a frase de uma temporalidade metrificada e a diluindo em um mar de sons digitais cujo tempo tenta-se aproximar do onírico.
EMARANHADOS PSÍQUICOS.
linscker
2024
Videoarte
O conceito de ego, superego e id na teoria psicanalítica de Sigmund Freud, representando diferentes aspectos da psique humana é central para entendermos a videoarte. O id é a parte mais primitiva e instintiva da mente, buscando a satisfação imediata dos desejos e impulsos. É guiado pelo princípio do prazer, buscando gratificação sem levar em consideração normas sociais ou consequências. O ego é a parte da mente que lida com a realidade e busca equilibrar as demandas do id com as restrições da realidade. Age conforme o princípio da realidade, considerando as consequências e adaptando-se às normas sociais para satisfazer os desejos do id de maneira aceitável. O superego representa a internalização das normas sociais, valores e moral. Ele atua como uma espécie de “juiz interno”, avaliando as ações do ego à luz de padrões éticos e morais. O superego se desenvolve ao longo do tempo, influenciado pela educação, sociedade e experiências. Essas três instâncias interagem dinamicamente, formando a estrutura psíquica. O equilíbrio entre o id, ego e superego é essencial para um funcionamento psicológico saudável. Conflitos entre essas partes podem levar a diferentes formas de comportamento e, muitas vezes, são explorados em terapia psicanalítica para promover o autoconhecimento e o desenvolvimento pessoal.
ENCANTARIA MARGINAL E ESTÉTICAS DIGITAIS: EXPERIMENTAÇÕES E RELEITURAS A PARTIR DE FONTES HISTÓRICAS.
Ben Kubits
2022-2025
Ilustração
A pesquisa parte da relação entre fé, imaginário popular e prática artística contemporânea para reativar visualidades silenciadas da encantaria maranhense. Por meio da performance e da poesia visual, o estudo revisita entidades marginalizadas do campo simbólico urbano, propondo novas formas de existência estética para presenças espirituais que resistem ao apagamento histórico. As investigações situam-se nos cruzamentos entre estatuária católica, religiosidade indígena e africana, bem como mitologias locais, observando como processos sociais e ideológicos contribuíram para a exclusão dessas entidades dos espaços públicos ao longo do século XIX e primeira metade do XX. A partir de registros textuais, relatos orais e arquivos etnográficos, evidencia-se a importância dessas figuras para a construção cultural de São Luís, especialmente nas zonas liminares da cidade — rua, encruzilhadas, cemitérios e territórios do “baixo meretrício”. Nesse deslocamento, a arte emerge como dispositivo de reaproximação e reinscrição da memória coletiva.
ENTRE RASTROS, SONS E MOVIMENTOS
Isadora Alonso e Paco Vasconcelos
2026
Performance
Performance que busca investigar o corpo e seus possíveis movimentos de forma expandida, quando este se torna também um corpo sonoro em diálogo, intermediado pela tecnologia, com a prática do desenho, sendo ela aqui considerada como uma ação produtora de conhecimento. A obra apresentada aborda e explora essas duas relações, enfatizando também a prática do desenho como uma forma de produção de conhecimento no processo criativo. Cecília Almeida Salles aponta em seu livro “Redes da Criação: Construção da Obra de Arte” (2006) para como, através de desenhos, diversos artistas levantam e testam diversas hipóteses. Além disso, a autora também destaca seu caráter de pensamento e imaginação visual, um meio para dar concretude à imaginação. Essa perspectiva é também abordada por Milton Glaser, famoso designer e artista, que ressalta em seu livro de imagens “Drawing is Thinking” (2008) que através da tentativa de desenhar algo, articulando o movimento da mão com o pensamento, é possível tornar-se ciente, ou consciente, daquilo que realmente se enxerga.
ENTRE VAGALUMES E PÉROLAS
Amanda Alves
2025
Audiovisual
A obra audiovisual apresentada transborda a função de registro historiográfico para se afirmar como um dispositivo de memória e um exercício estético de montagem,. Mais do que documentar o jornalismo cultural, o vídeo se estrutura como um “atlas de imagens”, uma constelação visual erguida sobre a tensão entre o esquecimento e a sobrevivência das manifestações culturais. A partir da perspectiva teórico-poética de Georges Didi-Huberman, a obra assume a metáfora dos “vaga-lumes” como uma célula-conceitual base. Em um mundo saturado pelos “holofotes ferozes” do poder e do mercado (que buscam uniformizar a experiência sensível), o documentário se propõe a capturar os lampejos intermitentes, as luzes frágeis mas insistentes das culturas que resistem à homogeneização. A narradora rejeita a neutralidade passiva, situando-se como uma agente subjetiva que orquestra uma caçada a esses sinais luminosos, transformando a tela em um espaço de negociação entre visibilidades e invisibilidades.
ESCULTURAS SONORAS: MATERIALIDADES NÃO PREVISÍVEIS
Adriano Barbosa e Sidney Tamai
2025
Instalação-Performance
Esta pesquisa tem como objetivo investigar as esculturas sonoras como ferramentas educativas, analisando suas potencialidades estéticas, tecnológicas e pedagógicas no contexto escolar. O trabalho parte de uma abordagem entre arte, som e educação, explorando como materiais não convencionais como tubos de PVC, latas de alumínio, garrafas PET e paletes de madeira para a composição de esculturas sonoras ou como chamados também de instrumentos não convencionais, que podem ser utilizados na construção em ambiente escolar, estimulando a criatividade, a socialização em grupo e a percepção sensorial dos alunos. A fundamentação teórica apoia-se nas reflexões de Jean-Yves Bosseur (2018) sobre a fusão entre forma e som.
EUEUZINHOEUDNV(3)
Pedro Viadd
2026
Objeto-instalação interativo
O trabalho é a quarta materialização pensada para “EuEuzinhoEudnv”, uma obra/processo que nasce em 2017 e segue sendo desenvolvida por nove anos desde então. “EuEuzinhoEudnv(3)” é resultado do período entre 2023 e 2026, quando “EuEuzinhoEudnv” foi objeto da minha pesquisa de mestrado em Poéticas Visuais e Processos de Criação na UNICAMP, sob orientação do professor doutor Mauricius Martins Farina. Tendo em vista que gestos simples materializados pelo touch dos meus celulares pessoais e pelas ferramentas de desenho e de edição disponíveis no Instagram Stories são o berço de todo esse processo, a elaboração de “EuEuzinhoEudnv(3)” incia-se através da selfie, que seguiu sendo base de todas as outras camadas da obra conforme seus desdobramentos. “EuEuzinhoEudnv(3)” advém da vontade de perturbar a forma como o digital lida com a autorrepresentação sem ignorar as complexidades dessas questões.
EXCESSO DE AR
Alex Domingues
2025
Instalação
Excesso de ar é um conjunto de vídeo performances construído a partir de exercícios de respiração. Todos os vídeos partem do mesmo princípio: tornar visível o movimento contínuo de inspirar e expirar como estrutura central da imagem e da duração. Os vídeos se organizam a partir desse gesto repetido, sustentando-se no fluxo de ar que atravessa o corpo e regula sua permanência. A captura utiliza um desenho de luz chiaroscuro que evidencia as regiões envolvidas no ato de respirar, nariz, boca, pescoço e caixa torácica, mantendo o restante do corpo em escuridão e isolando o movimento respiratório como campo de visibilidade. O rosto, fragmentado pela incidência da luz e pela densidade da sombra, impede uma leitura estabilizada. A ausência dos olhos interrompe o contato visual e desloca a imagem para uma zona de instabilidade perceptiva. Permanece reconhecível como presença humana, mas sem oferecer um ponto fixo de identificação. Essa aparição incompleta aciona um tipo de estranhamento que se aproxima do unheimlich freudiano: aquilo que retorna de forma familiar e, ao mesmo tempo, perturbadora, como se estivesse ligeiramente deslocado do que se espera encontrar.
EXPANSÃO DO UNIVERSO E A DOBRA DO TEMPO
Mayssa Leão
2025
Instalação
“Expansão do universo e a dobra do tempo” parte de princípios fundamentais da física contemporânea — a expansão contínua do universo e a relatividade do tempo — para construir uma experiência sensível sobre a condição humana no cosmos. A obra toma o tecido como metáfora do próprio espaço-tempo: uma matéria flexível, instável e em permanente transformação. A expansão, visível no alongamento vertical da obra suspensa, remete ao afastamento das galáxias desde o Big Bang, um movimento que não implica apenas crescimento, mas também deslocamento, perda de centro e ausência de um ponto fixo. Já o excesso de tecido que toca e se dobra no chão materializa a noção de tempo não linear, evocando a ideia de que passado, presente e futuro coexistem como camadas que se sobrepõem, se comprimem e se distorcem.
FESTA ANCESTRAL
Denis Zubieta
2025
Instalação
Esta obra faz parte da exposição Gambiarras: objetos decoloniais que é um projeto de exposição artística interativa e imersiva para a apresentação de um conjunto de obras inseridas nas linguagens da instalação interativa, audiovisual e fotografia. Tais obras apresentam uma escultura interativa em seus desdobramentos, e estão inseridas nas linguagens da Arte Contemporânea, e especificamente na área da Arte e Tecnologia, possui como base o hibridismo de diversas materialidades, tais como elementos têxteis, sonoros, mecânicos, elétricos e eletrônicos-computacionais (microcontroladores, motores de movimento, sensores de presença, luzes de LED, dentre outros) e com acesso à Internet, tendo como resultado 05 instalações. Os objetos artísticos interativos podem ser definidos pela elaboração de sua materialidade a partir do olhar decolonial inserido no universo da gambiologia, termo utilizado na construção de eletrônicos com uma espécie de sotaque antropofágico, por meio de aparelhos reciclados, ou até mesmo sucatas, que trazem um novo significado para o contexto tecnológico.
FIZEMOS FOI CARNAVAL
Aldene Rocha
2025
Objeto artístico em fotografia expandida
Através da cianotipia sobre tecido e do bordado manual, a obra articula práticas populares e técnicas artesanais, evocando o brilho da rua, o carnaval e os rituais do corpo como formas de resistência, memória e invenção. A máscara opera como gesto político e poético, afirmando uma fotografia que dança, que brilha e que pensa.
“FLORESTA ENCANTADA”
Cely Ferreira
2026
Ilustração
A pesquisa é baseada na floresta Amazônica, nas lendas da Amazônia, em particular a dos botos, representada na festa do Sairé em Alter do Chão, e outras menos conhecidas como Kunuaurú, Jurupari, Yurupari e a cultura do povo Borari e seus conhecimentos sobre as plantas medicinais e as para uso na perfumaria. A obra tem a representação da Sumaúma, símbolo da Amazônia e os pássaros locais.
FORMAÇÃO
Bruna Braga
2025
Ilustração e Pintura
Coleto fragmentos do presente com a lente—um muro pichado, um outdoor desbotado, o fluxo anônimo na Praça Sete. Estes são os ossos do meu real. No espaço digital, opero a cirurgia do possível: desloco, repito, sobreponho. A montagem forma a leitura dos ossos que antevê um amanhã já inscrito nas rachaduras de hoje. Sobre a tela, o óleo converte o pixel em matéria. A pincelada é lenta, tátil, um antídoto contra a velocidade do virtual. É aqui que o futuro distópico deixa de ser ilustração e ganha peso, textura, uma melancolia tangível. A IA não é um símbolo brilhante; é uma mancha de tinta, fria e solitária como a cidade que a cerca. A promessa tecnológica pra mim é decepção.
FRONTERAS ABIERTAS
Brenda Marques Pena com Colectivo de Escritura Migrante e Imersão Latina
2024
Videoarte
A videoarte Fronteras Abiertas (2024) é uma produção audiovisuais do Colectivo de Escritura Migrante, que tem como direção/ coordenação de produção: Brenda Mar(que)s Pena. Esta obra se estrutura explicitamente a partir de uma lógica geopoética e geopolítica, assumindo a fronteira como campo de disputa simbólica, histórica e sensível. As fronteiras são apresentadas simultaneamente como espaços de divisão e de encontro, de limitação e de criação. A obra propõe uma reflexão crítica sobre os territórios latino-americanos a partir de seus nomes originários — Pachamama, Pindorama, Abya Yala —, deslocando o olhar do paradigma colonial para uma perspectiva ancestral e contra-hegemônica. Essa escolha inscreve a videoarte em um campo de reexistência simbólica, no qual nomear o território torna-se um gesto político e poético.
FUNGO (CANÇÃO PARA O FIM DO MUNDO)
Osmar Domingos
2022 – 2025
Escultura
Canção para o fim integra a série Fungos — esculturas responsivas entre si, aos visitantes e ao ambiente — pertencente à instalação Ensaio para ficção especulativa latina. A obra reage à proximidade humana emitindo um aviso sonoro: uma melodia adaptada da partitura presente na seção Inferno do tríptico de Hieronymus Bosch, executada por meio de um buzzer acoplado a um sistema eletrônico simples. O som, precário e insistente, opera como sinal de alerta e de memória: o inferno não é uma projeção futura, mas algo que se espreita no presente, instaurado no momento em que o humano se coloca ontológica e existencialmente fora da natureza e passa a agir sobre ela como aquilo que existe para servir. Ensaio para ficção especulativa latina propõe uma recusa consciente da ficção científica hegemônica: distópica, tecnocêntrica, antropocêntrica e colonial, marcada pela ideia de conquista, pela homogeneização da linguagem e pela eliminação da alteridade radical. Em seu lugar, a pesquisa imagina futuros situados a partir da experiência latino-americana, onde a tecnologia não se impõe como promessa de salvação, mas convive com precariedade, cor, mistura de línguas, comunicação por vias não normativas e colaboração entre diferenças. Trata-se de uma utopia da simbiose, do carnavalesco e da coexistência — uma celebração do absolutamente outro como condição de continuidade da vida.
GOLENS TRANSGÊNICOS
Ciberpajé (aka Edgar Silveira Franco)
2025
Animação
As duas criaturas apresentadas no “animaforismo” são fruto de desenhos feitos a partir de vislumbres do Ciberpajé em uma experiência de ingestão do enteógeno Psilocybe cubensis. Após desenhá-las ele percebeu que elas se enquadram no conceito de “golens tecnogenéticos” presente na sua Aurora Pós-Humana, seres transgênicos criados em laboratório para atuarem como serviçais de humanos e outras espécies. Ou seja, a vida de criaturas sencientes patenteada como um produto descartável. Assim, no animaforismo, as duas criaturas são animadas para fazerem dancinhas no ritmo da música que remetem à moda da rede social TIC TOC, denotando essa vulgarização e uso indiscriminado de seres vivos transgênicos como objetos ou coisas. O aforismo que acompanha a animação trata criticamente dessa coisificação da vida.
GORO – ESTUDOS PARA NATUREZA CINÉTICA
Jonas Esteves
2020/2025
Híbrido de resíduos orgânicos, elementos eletrônicos e programação
Goro é uma obra que nasce de uma série de estudos que leva o nome de Natureza Cinética. Em Natureza Cinética proponho o diálogo entre esses dois conceitos para embasar a criação de objetos escultóricos híbridos, formados por componentes naturais tais quais cascas, galhos, folhas e sementes de plantas e por componentes robóticos como motores, sensores, atuadores e nanocomputadores. Goro ganha movimento a partir de uma programação randômica como possibilidade de se alterar com dados provenientes de um servidor. Seu corpo híbrido é formado por casca de árvores com musgos presas a motores. Ao longo da exposição, de tempos em tempos o sistema recebe uma umidificação para manter os musgos vivos.
HERBÁRIO DA CATÁSTROFE
SensoLab (Oscar Guarín Martínez, Marta Cabrera, Mariana Florian e Juan Camilo Cajigas)
2022-2025
Videoinstalação
Os herbários, na sua formulação clássica, têm sido dispositivos dedicados a fixar a vida vegetal através de operações de classificação, registo e ordenação. As suas lâminas, nomes e datas constituem uma forma de organizar o visível que estabiliza aquilo que, no seu desenvolvimento quotidiano, permanece em variação. Este projeto situa-se deliberadamente em outro ponto. Em vez de reproduzir esse gesto de fixação, o Herbário da Catástrofe propõe-se a questionar as próprias condições que tornam possível o surgimento do vegetal, especialmente onde essas condições foram configuradas pela empresa colonial.
Esse deslocamento exige reconhecer que as plantas não aparecem sozinhas nem de maneira neutra: sua visibilidade é mediada por regimes de representação, técnicas de arquivamento, práticas extrativas e ficções científicas que moldaram as maneiras como elas podem ser vistas. Por isso, o projeto não busca descrever essas determinações, mas intervir nelas. Ele faz isso por meio de artefatos de pensamento que operam nos limiares entre as artes, as ciências sociais e as tecnologias, e que introduzem outra forma de questionar o que se dá a ver.
Consideramos esses artefatos como produções indisciplinadas que fogem da lógica da obra concluída. Eles habitam um espaço intermediário onde o processo prevalece sobre o resultado e onde a criação não visa uma síntese, mas manter aberta uma forma de pensar em trânsito. Sua poética reside nessa dupla operação: pensar através de gestos materiais e permitir, ao mesmo tempo, que o pensamento gere formas de fazer que não se subordinam a nenhum marco disciplinar.
Um artefato de pensamento — seja uma montagem audiovisual, uma risografia, um fragmento textual ou uma composição botânica — não pretende transmitir um conteúdo, mas alterar a maneira como algo pode aparecer. Ele atua sobre o quadro, a escala e o ritmo do olhar; interrompe as determinações que tornam o visível um território estável; abre um campo onde o vegetal se torna pensável de outra maneira. Seu poder não reside na representação, mas na experiência que produz quando imagem, gesto e matéria se entrelaçam para gerar um espaço crítico.
Esses artefatos permitem desmontar o regime de visibilidade que historicamente regulou a leitura das plantas e, ao mesmo tempo, possibilitam formas de percepção que não dependem da ordem classificatória. Eles sustentam a abertura do sentido, evitam o fechamento interpretativo e promovem uma atenção capaz de acolher as modulações do vegetal em sua complexidade. Entendida como prática transformadora, a atenção se torna aqui um exercício crítico: ela não apenas recebe o que aparece, mas o torna possível de outra forma.
A estrutura da obra responde a essa abordagem metodológica. Ela se organiza em quatro seções dedicadas à coca, às orquídeas, às raízes e às coleções de história natural. Cada uma constitui um problema de aparição distinto: a coca em seu trânsito entre gesto ritual e mercadoria; as orquídeas em sua inscrição em sistemas de sexualização e exotização; as raízes como rede subterrânea que revela o que a superfície oculta; e as coleções como dispositivos museográficos que fixaram as plantas dentro de uma lógica de captura epistêmica. Em cada caso, os artefatos do pensamento permitem tensionar essas formas de aparição, reconfigurá-las e abrir novas possibilidades de leitura.
Sob essa perspectiva, o Herbário da Catástrofe não reconstrui uma história natural, mas problematiza as operações que a produziram. Ele trata a catástrofe colonial não como um episódio do passado, mas como um regime persistente de inscrição nos corpos humanos e não humanos. Ao trabalhar com artefatos do pensamento, este projeto propõe que pensar com as plantas não consiste em buscar sua essência, mas em criar condições sensíveis onde elas possam introduzir variações que transformem nossa maneira de ver, conhecer e nos relacionar com elas
HOJE MORREU UM HOMEM BRANCO
Calixto Bento
2026
Videoarte
“Hoje morreu um homem branco” está presente na compreensão da pele como o arquivo primário e inalienável, em oposição à gélida ficção do papel burocrático. O conceito central da obra é a desobediência gráfica: um gesto que denuncia a tecnologia de embranquecimento operada pelo Estado brasileiro, onde o atestado de óbito deixa de ser um registro para tornar-se um dispositivo de apagamento. O argumento sustenta-se na tensão entre a abstração do dado oficial e a materialidade da existência negra. Através de uma ação tecnopoética, o trabalho confronta o ruído das estatísticas com a densidade da memória hereditária, através de vídeos e fotos, revelando que o branqueamento da morte é uma violência que tenta, sem sucesso, confinar a ancestralidade às margens de um formulário. A obra propõe, portanto, uma tomada da palavra, onde o vídeo não apenas documenta a falha, mas performa a resistência. Reivindicar a cor do luto e a veracidade do traço identitário é um ato de restauração do direito à memória. Conclui-se que a ancestralidade é um fluxo que transborda a métrica burocrática, afirmando que a verdade do corpo é uma marca política que nenhum registro oficial é capaz de neutralizar ou silenciar.
HOLOGRAMA 3D VIRTUAL – UM SUJEITO E SEUS EUS 2
Aquiles Burlamaqui e Laurita Salles
2026
Instalação
Trata-se de uma obra que é decorrente da identidade descentrada e mutável do sujeito contemporâneo (Stuart Hall e outros autores), não possuindo uma identidade fixa, essencial ou permanente mas , transformada continuamente e confrontada por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis e cuja poética é plasmada por esse sujeito contemporâneo.
HUTUKARA: ENTRE A PELE E A CASCA
Marcela Cavallini (Marcela de Macedo Cavallini)
2022
Instalação audiovisual
O trabalho nasce da oficina Corpoambiente, voltada principalmente a mulheres, muitas delas atravessadas por experiências de violência. Nesse espaço de encontro, escuta e criação, o corpo torna-se território de reinvenção e cuidado. Hutukara: entre a pele e a casca, nome oriundo da cosmologia yanomami, emerge desse processo como força imagética e princípio de composição, afirmando a metamorfose dos corpos como resposta à vida e à sua insistente ressurgência. O título reconhece um território possível e imaginado onde cada participante pôde reunir-se, criar e afirmar-se como meio de sua máxima expressão. Ao longo dos encontros, os elementos da natureza atravessaram os corpos como uma dança pluriversa, em ressonância com vidas não humanas que, naquele instante, se faziam presentes nos campos vibratórios de cada gesto. A partir de escolhas singulares, as artistas corporificaram a água, a terra, o fogo, a árvore e a serpente — não como formas de representação, mas como energias, qualidades e presenças que se infiltram no ritmo, na atenção e na escuta sensível do corpo. Estranhá-los como parte de si passou a compor o próprio processo, abrindo fissuras nas certezas de uma humanidade enclausurada em domínios identitários rígidos, hierarquizados e excludentes.
Hutukara, como nos ensina Davi Kopenawa, é o universo yanomami: um ovo cósmico onde terra, céu, rios, florestas, humanos e não humanos coexistem como um mesmo corpo vivo. Não é metáfora, mas filosofia ancestral corporificada e modo de habitar o mundo. Diante dessa cosmopolítica, a obra se pergunta: o que ainda podemos fabular como universo, hoje, enquanto artistas? Que gestos mínimos são capazes de sustentar mundos em meio à barbárie em curso?
INVÉRTER
Lucas Pamio
2022
Série de imagens / Artes visuais digitais
A série “Invérter” parte da imagem urbana como matéria instável, recusando seu caráter de registro fiel para tratá-la como construção simbólica. A inversão e o espelhamento funcionam como estratégias conceituais que tensionam noções de orientação, centralidade e reconhecimento da paisagem. Ao reorganizar fotograficamente o centro de São Paulo, as imagens revelam uma cidade fragmentada, sobreposta e contraditória. A manipulação digital explicita essa condição, produzindo uma visualidade marcada pela perda de referências e pela instabilidade perceptiva. Entre rigor técnico e desordem visual, o trabalho propõe a imagem como espaço de questionamento, onde ver implica duvidar e confrontar a instabilidade da experiência urbana.
JARDIM DE SILÊNCIOS
Sinfonia na Cidade (Marcela Maciel)
2024
Instalação interativa in-sonora
Jardim de silêncios é uma cartografia colaborativa de sinais de silêncio em uma paisagem sonora pós-digital. Qual silêncio habita a sua escuta? Paisagem sonora pós-digital é uma terminologia usada para uma reflexão sobre as fronteiras sonoras entre o analógico e o digital, o natural e o artificial, o orgânico e o maquínico, após a morte de uma realidade sem a presença do digital. Neste “tsunami digital”, em que tesouros naturais se transformaram em lixo, o silêncio emerge como uma pausa necessária para a conexão com o essencial.
KR1PTX0C0 & TBN Z3R0 – UMA TATTOO-FICTION BIOPUNK CERRACA (VERSÃO ZINEMATOGRÁFICA)
Amante da Heresia (Léo Pimentel Souto com contribuições de Rennan Queiroz, Luiz Fers e Edgar Franco)
2025
Zideoarte (videoarte via gesto zinematográfico)
Poética transmídia como um experimento de ZINbiose: todos os processos criativos envolvidos são pensados como forma expandida de criação de zines – evidenciado pelo prefixo ZIN. pErformaNZI ao fazer performance; muZINista ao realizar a improvisação musical; e ZINeasta ao remontar seu registro em vídeo; acrescido pela Tattoo-Fiction Biopunk por ter o ato de tatuar como centro de gravidade narrativo.
LA DIGESTIONE DELLA MONSANTO
Gustavo da Rosa
2024
Objeto encontrado
Ao reinscrever esses anúncios em um contexto artístico contemporâneo, a obra desloca seu sentido original e propõe uma leitura crítica do imaginário modernizador do pós-guerra. A narrativa otimista da indústria química é confrontada com o conhecimento atual sobre os impactos da exposição sistêmica a polímeros derivados, especialmente no campo da saúde. Assim, o trabalho tensiona passado e presente, revelando as contradições entre a promessa de progresso difundida pela publicidade e as consequências materiais e biológicas desse legado industrial.
LES FILMS DE FANTÔMES
Gabriel Celestino
2026
Cinema Experimental Generativo
Fundamentada na crítica de Baudrillard à transparência do real e na inversão da lógica espectral de Derrida, o trabalho argumenta que a nitidez digital eliminou o segredo, restando ao artista operar nas sombras da latência maquínica. Evocando sensações e espectros do Nouvelle Vague, a obra apresenta figuras humanas geradas por IA como vetores de afeto e memória sintética, questionando o estatuto de verdade do arquivo. A sustentação poética reside no paradoxo do reconhecimento humano mediado por imagens sintéticas, tensionando o lugar do artista em nosso tempo: aquele que deixa de ser puramente assombrado pelo medium para se tornar assombração na artificialidade das imagens.
M1/M2
Julia Brasil
2025
Objeto-sensorial-plastico-sonoro-topológico
M1/M2 emerge como um dos trabalhos que integram minha pesquisa, na qual investigo o calor como mídia — um meio por meio do qual, e com o qual, o acontecimento artístico se constitui. A partir dessa proposição, a designação artista-do-calor surge como um gesto de autonomeação: um corte que articula dimensões conceituais, políticas e sensoriais do trabalho.
Desenvolvo experimentos térmicos a partir de diferentes infraestruturas de calor, que vão de sistemas de climatização à radiação solar, da atmosfera ao calor produzido por seres vivos. Esses experimentos evidenciam a termicidade como um campo comunicacional multiescalar, no qual corpos e agenciamentos minerais, orgânicos, maquínicos e outros se afetam mutuamente, um processo que tenho denominado comunicação metabólica.
Dentro desse campo da termicidade situam-se os sistemas de refrigeração, aquecimento e ventilação, estruturas sobre as quais M1/M2 se debruça. Trata-se de infraestruturas que modulam nossos modos de produção e reprodução da vida e que materializam uma condição moderna do pensamento: a ideia de controle humano sobre as condições climáticas.
Ao se apropriar da materialidade dos dutos de ventilação, M1/M2 opera um corte entre utilidade e arbitrariedade, entre estrutura e acontecimento, entre sensorialidade e significância. As formas desses dutos carregam a estética do espaço contemporâneo — tecnológico, funcional, produtivista. No entanto, o jogo corporal ao qual convidam desloca esse regime, abrindo espaço para o ócio, o prazer e a experimentação do corpo contra (e junto) a estrutura.
MÁQUINA-EU MÁQUINA-MUNDO
Arthur Xavier
2025
Performance
A era da hiperconectividade e da economia da atenção funda novas formas de se relacionar com o mundo, com o outro, e consigo mesmo; cria “novas formas de ser e de construir o sujeito, mas também novas formas de ser construído enquanto sujeito pelo que é externo, novas formas de ser configurado, representado e governado enquanto sujeito por sistemas sociotécnicos” (Brubaker, 2020). Dialogando com teorias contemporâneas sobre os impactos da mediação tecnológica onipresente dos dias atuais, este trabalho busca, através de uma performance de dança com áudio interativo em tempo real, investigar e refletir sobre as relações dialéticas entre humano e máquina nos processos de construção de si e de interação com o corpo, o espaço e o outro. Além disso, procura explorar os processos de criação e expressão artística e os diálogos mediados pela máquina.
MAT_A_R
Débora Aita Gasparetto
2026
Arte digital
Mat_A_r parte da compreensão de que mar, mata e ar constituem sistemas interdependentes, atravessados simultaneamente por processos naturais, ações humanas e mediações tecnológicas. A série estrutura-se como um tríptico ambiental no qual cada obra ativa conjuntos específicos de dados públicos abertos, provenientes de instituições científicas e sistemas de monitoramento ambiental de diferentes países e blocos geopolíticos. Ao cruzar dados oriundos de contextos políticos e institucionais distintos, o trabalho não busca uma verdade unificada ou estável, mas evidencia disputas, assimetrias e silenciamentos que atravessam a própria produção do conhecimento ambiental. Os dados não são tratados como registros neutros, mas como artefatos políticos, produzidos por infraestruturas técnicas que respondem a interesses econômicos, estratégicos e ideológicos. Nesse sentido, Mat_A_r investiga não apenas o que os dados mostram, mas a quem servem, quem os coleta, quem os interpreta e quais realidades tornam visíveis ou invisíveis.
MATERIALIDADE DA TINTA – LUPA
Alice Caumo
2025
Videoarte
Minha obra investiga a materialidade da tinta como campo de disputa entre pictorialidade e tridimensionalidade. O gesto pictórico, geralmente entendido como ´pincelada sobre uma superfície plana da tela, é deslocado para uma condição de objeto autônomo e individual, pleno de sentido. Nesse movimento, a tinta deixa de ser apenas meio para representar algo e passa a afirmar-se como matéria autônoma, com espessuras, camadas, texturas e acúmulos que operam como artefatos. O olhar não se fixa na cena, mas no acontecimento do material, no que ele revela quando a pintura é tratada como corpo. O trabalho se desdobra em um vídeo que cruza procedimentos analógicos e digitais ao registrar um experimento de ampliação. O estereoscópio (lupa binocular), instrumento óptico utilizado em laboratórios de biologia, geologia e eletrônica, torna-se aqui um artifício do olhar e do registro, capaz de reconfigurar escala. Ao captar raspas de tinta, pasta de modelagem com espessante acrílico, pinceladas e emplastos em aproximações de 10x a 80x, o que era fragmento se transforma em paisagem abstrata. Assim, a obra ativa tensões entre fato e ficção da imagem, entre materialidade crua e paisagem visual, ampliando modos de experienciar a matéria tinta.
MECANIZAÇÃO DO NÃO VISÍVEL.
Ale_db
2023
Quadros, posters
O trabalho investiga os limites e as possibilidades da representação cartográfica dos sistemas de telecomunicações no território brasileiro, evidenciando a necessidade de leituras mais críticas sobre a relação entre infraestrutura técnica, espaço e sociedade. Ao adotar uma abordagem experimental e não ortodoxa do uso de dados georreferenciados, o processo metodológico se constrói de forma não linear, baseado em iterações, desvios e tentativas. Mais do que oferecer respostas fechadas, a pesquisa assume a cartografia como um campo de investigação estética, crítica e tecnológica, capaz de revelar camadas invisíveis do território e provocar novas questões.
MERCADO DE TRABALHO
Arthur Xavier
2025
Performance
Com o avanço das políticas neoliberais sobre praticamente todas as esferas da vida contemporânea, a classe trabalhadora se vê cada vez mais marginalizada. Essa performance de arte sonora e visual propõe uma experiência sensível e crítica sobre a precarização das condições e relações de trabalho atuais. Fazendo uso de um computador com webcam como instrumento e cartões de código de barras como partitura, “Mercado de trabalho” convida o espectador a um encontro reflexivo com as dificuldades e opressões vividas diariamente por trabalhadores anônimos ao expor seus relatos gravados, suas histórias e subjetividades como objetos de mercadoria, produtos com códigos de barra escaneados pelo artista.
NOKIA TIJOLÃO
Luiza da Motta Horn
2025
Cerâmica, Instalação
Nesta pesquisa, a artista entende que essas complexas tecnologias também precisam de um tipo de sistema de extração altamente complexo para funcionarem.. Esses objetos tecnológicos enfatizam que o planeta em que operamos revela um custo ambiental altíssimo. Que cada objeto descartado de tecnologia de informação, dado como substituível em pouquíssimo tempo por ficar defasado, chega até nós mediante um delicado e altamente complexo sistema de extração, oriundo e perpetuado por um sistema colonial de exploração.
NOTÁVEIS CIENTISTAS BRASILEIROS: UMA EXPERIÊNCIA VIRTUAL.
Ronnie Brito
2025
Instalação
A obra propõe a construção de uma memória coletiva a partir de semelhanças fisionômicas, organizadas em estruturas arbóreas distribuídas em um ambiente virtual. Essa floresta digital configura um espaço de navegação e descoberta, no qual o deslocamento do participante ativa relações entre identidade, reconhecimento e pertencimento. Ao percorrer os agrupamentos, emergem rostos que se correspondem e se diferenciam, instaurando um campo de associações visuais e simbólicas. Em cada árvore, um cientista notável ocupa a posição de raíz conceitual, articulando conhecimento, ancestralidade intelectual e memória compartilhada. A obra opera, assim, como um ecossistema simbólico no qual ciência, imagem e experiência se entrelaçam.
O LADO B DESSAS HISTÓRIAS: MÍDIA, TECNOLOGIA, VIDEOARTE E BISSEXUALIDADES
Coletivo Lado B (Fernando Silva)
2024
Videoarte
A videoarte Lado B é fruto e parte da dissertação de mestrado “O Lado B: mídia, tecnologia, videoarte e bissexualidades” (Leme, 2024), pesquisa que encontra-se, desde 2024, na biblioteca do MASP, e que recebeu menção honrosa pela ABETH (4º Prêmio de Dissertações e Teses da Associação Brasileira de Estudos da TransHomocultura) em novembro de 2025.
Portanto, a obra em vídeo, parte intrínseca da pesquisa, não fora apenas produto final de um estudo teórico, mas sim vivência que produziu visualidades, epistemologia e tecnologia, baseadas na amizade, arte e ativismo e no histórico de artistas, ativistas e coletivos bissexuais, corroborando para que o que chama-se de apagamento bissexual esteja dando lugar para visualidades múltiplas, alcançando voos para outros mundos
OCUPAR AS FISSURAS
Paula Davies
2023
Aplicação em realidade aumentada
Eu ganhei um vaso com duas plantas bem diferentes que cresciam juntas. Uma altiva, avermelhada, que crescia para cima. Ao redor dela, uma vasta folhagem muito verde, muito vívida, que crescia para os lados. Achei muito bonita a composição. Depois, fiquei sabendo que a planta “original” era a avermelhada altiva. O arbusto verde eram ervas daninhas, que cresceram livre e descontroladamente, tomando conta do vaso. Escolhi acompanhar as ervas daninhas.
OLHAR DE SABIAGUABA
Thalyta Alvaroz
2026
Fotografia Artistica
A fotografia foi feita de uma das dunas de Sabiaguaba em Fortaleza-ce, ali é mais que um ponto turístico, é ser vivo, uma beleza natural que resisti o tempo e o avanço imobiliário, a única área de dunas que restou em Fortaleza, apesar da ambição de destruição do homem ela ainda resiste ali, lá de cima podemos ver os contrastes da cidade, felizmente os prédios se tornam bem pequenos olhando dali, eles simplesmente se perdem no mar de tons que caminham do verde ao azul, temos um rio que atravessa várias áreas da cidade, temos uma imensidão de árvores, e o oceano logo atrás, de lá podemos sentir a calmaria de um lugar que é história e memória enquanto vemos o sol se por lindamente no horizonte.
PARA O SILÊNCIO
Giovana Domingos
2025
Videoperformance
O silêncio é uma ferramenta de gestão, artificio de controle. Ele pode ser induzido por s(c)istemas e condiciona o corpo a uma performatividade cotidiana. A questão é que, me cansei de performar o silêncio sistematizado. A partir do silêncio que escolhi fazer, expresso com arte a complexidade dos barulhos que ecoam em meu corpo dissidente, trans, não binárie e neurodivergente. “Para o silêncio” é uma videoperformance advinda do silêncio que me causa dicotomicamente, (des)conforto. A obra surgiu de um silêncio que EU ESCOLHI fazer, porque até então, o silêncio prevalente não era meu e nem consciente.
PEACE WIND
Domenico De Simone
2024
Audiovisual Art / Video Installation
PEACE WIND explores the invisible, borderless forces of nature and the human soul. Starting from the sound of wind that caressed me as a child, the work transforms it into an “unheard and inaudible language” of peace, made perceptible through music and image. It meditates on the subtle power of gentle, persistent forces—how quiet energy can shape our inner and outer worlds. The piece invites reflection on harmony, collective calm, and an ideal state of being where peace is not shouted but experienced, heard only by the deepest parts of our consciousness. Through the interplay of sound and visual imagery, PEACE WIND becomes a contemplative space where the familiar dissolves into the ethereal, connecting memory, transformation, and hope.
PENSAMENTOS CONTEMPORÂNEO
Bruno Rodrigues
2024
Ilustração digital
Porque pensamos? Pensamos como deveríamos pensar ou apenas captamos pensamentos disponibilizados como mercadoria?
PIXELS
Paulo dos Reis
2026
Ilustração
Forma de enxergar o mundo ou as mídias com as limitações que tínhamos antigamente.
“PODER-PERMISSÃO E PODER-POSSIBILIDADE”
Julia Neres (JN)
2024
Ilustração digital
A obra explora os múltiplos poderes que atravessam nossa existência: o poder de errar, de esperançar, de escrever, de ser quem se é, de receber cuidado e de viver sem medo. Ela propõe que a emancipação depende de reconhecer sentimentos complexos e difíceis, aceitar vulnerabilidades e, ainda assim, continuar em movimento. O trabalho evidencia como nossos repertórios de escolha nem sempre nos permitem enxergar todos os caminhos possíveis, exigindo atenção aos ciclos afetivos que nos atravessam. Referências afropindorâmicas dialogam com processos mentais e espirituais, conectando experiências internas a trajetórias de ação e liberdade, e mostrando que viver plenamente é, acima de tudo, um exercício contínuo de poder e permissão.
POLÍGISMO RECRETIVO
Piegas
2026
Audiovisual/Visualizer/Arte digital
Exploração livre da junção dos recortes de produção artísticos de paisagismo e surrealismo. Aplicando a estética digital de jogos antigos e utilizando-se de sentimentos pessoais como insumo material pra ideias e representação.
PONTE(S)
Maximílian Rodrigues
2026
Smartografia (manipulação e inteligência artificial)
O trabalho artístico em questão se estrutura em torno do conceito da ponte como um topos multifacetado, que transcende sua função arquitetônica para se estabelecer como um dispositivo de mediação . Esta mediação opera em diversas camadas: entre o físico e o simbólico, o material e o tecnológico, a memória individual e a coletiva, e o local (amazônico) e o global. A ponte, neste contexto, não é meramente um objeto, mas um catalisador de experiências, um limiar que conecta e transforma, refletindo a dinâmica da vida ribeirinha e as interconexões da contemporaneidade digital. A prática artística emprega a smartografia (fotografia com smartphone) como ponto de partida, subvertendo a objetividade do registro documental através da manipulação digital e da inteligência artificial generativa. Modelos como Gemini 3 Nano Banana Pro e Adobe FLUX.2 Pro são utilizados para reconfigurar a paisagem, criando novas visualidades que dialogam com estilo imagético de jogos (pixel e voxel) e a carpintaria naval amazônica.
::PORO::
Lilian Amaral / HolosCi[u]dad[e]
2025
Obra artística computacional
::PORO:: encarna a materialidade de experiências mobilizadas a partir do pensamento tentacular (HARAWAY, 2023) como uma estética movente e uma metodologia que valoriza a interconexão, a sensibilidade tátil e as narrativas humanas e não-humanas, tendo buscado imaginar a criação de futuros mais justos e interdependentes no contexto de profundas mutações ecológicas atuais. Em ::PORO:: a interface é desenhada de forma minimalista e funcional, priorizando a ação direta, mas também o simbolismo conceitual. Cada clique nos elementos interativos, ou seja, nos círculos concêntricos, ativa uma combinação aleatória de som e imagem retirada de um banco de dados sonoro visual co-elaborativo predefinido, onde se encontram os materiais produzidos por nós, artistas-pesquisadores que participamos dos encontros do Open(Co)Lab 2025. Esta lógica introduz variabilidade e não-repetição, deslocando o controle do resultado para um diálogo entre sistema e usuário. Os controles de volume e os parâmetros visuais como transparência ou contraste permitem a intervenção no material, possibilitando uma exploração contínua entre sonoro e visual. A experiência em seus desdobramentos aponta para a emergência de uma epistemologia da trama. A co-criação e a obra ::PORO:: afirmam-se como métodos que forjam um conhecimento indissociável da ação, provando que a arte é uma linguagem crucial para a justiça socioespacial. O legado reside na demonstração de que é possível entrelaçar a pesquisa, a vivência, a arte e a luta, transformando invisibilidades em uma potente e inadiável presença.
PRESENÇA
Alba Vieira e Ester Lago
2025
Performance ao vivo simultânea à exibição da videodança.
A obra expande o diálogo entre a presença física e virtual, ao materializar uma perfomance que acontece em tempo real enquanto a videodança é exibida. A performance se fundamenta no conceito de In-excorporação (proposto por Alba Vieira), entendido como um processo que desloca a lógica clássica da incorporação — frequentemente associada à assimilação, interiorização e controle — para um regime de permeabilidade crítica. Nesse sentido, a presença performativa não é um estado pleno ou um “estar inteiro”, mas um modo de relação que se constrói na exposição do corpo às forças que o atravessam: espaciais, afetivas, históricas, políticas e materiais.
PRIMEIRO CONTATO
José Loures
2024
Instalação
O áudio apresenta o primeiro contato de crianças da periferia com uma galeria de arte. Nesse sentido, observam-se sentimentos de maravilhamento, espanto, curiosidade, alegria e decepção por parte dos visitantes na Galeria de Artes Antônio Sibasolly. Nesses anos percebi como os trabalhadores e moradores da periferia são excluídos dos espaços dedicados as artes contemporâneas. Contudo, não há museu/galeria de arte sem visitantes, não há arte sem contato com o outro. Para a maquete da Galeria de Artes Antônio Sibasolly, foi escolhida a madeira balsa, um material frágil, delicado e sutil, em cujo interior reverbera o áudio dessas crianças. Por fim, uma das provocações do trabalho é discutir a importância do público e de suas percepções em espaços que, muitas vezes, são elitizados e restritos a uma pequena parcela da população. Trata-se do eco de vozes infantis que nunca tiveram a possibilidade de contato com um espaço dedicado às artes. Um espaço que pode a qualquer momento desaparecer ou ser desfigurado para atender os interesses políticos de uma elite considerada religiosa.
PROMENADE
Henrique Vaz
2020
Performance audiovisual
PROMENADE investiga os artifícios de controle – dos decretos urbanísticos históricos aos algoritmos das plataformas digitais – que coreografam e regulam os corpos no espaço. A obra parte da figura da “epidemia de dança” (como a de Estrasburgo, 1518) e a atualiza para a era da coreografia algorítmica do TikTok, onde gestos virais são padronizados para engajamento. A performance opera uma errância crítica ao cruzar, em tempo real, o gesto pianístico analógico com a execução de códigos (live-coding) e a manipulação algorítmica do som e da imagem (vídeo de Shibuya). Esse palimpsesto técnico-poético materializa a tensão entre o orgânico e o automatizado, dissolvendo as fronteiras entre o fato (a filmagem documental) e a ficção (a síntese digital), entre a cidade real e o mapa que a governa. Sustenta-se, assim, na ideia de que tanto na praça pública quanto no feed digital, o movimento é um ato político, constantemente negociado entre a pulsão do corpo e os artefatos legais e tecnológicos que buscam contê-lo.
PULSO
Bárbara Serafim
2024
Curta-metragem experimental em dança / Videodança
Pulso pode ser visto como um manifesto visual sobre o devir. Utiliza a videodança experimental para investigar o paralelismo entre a semente que rompe a terra e o indivíduo que rompe o silêncio para tornar-se quem é. Aqui, a natureza do sul de Minas Gerais não é cenário, é corpo-extensão. O filme articula o encontro de dois corpos — uma mulher cis e uma mulher trans — em uma dança de alteridade e reconhecimento. No território do onírico, as fronteiras entre o humano e o vegetal se dissolvem: a pele é casca, o movimento é fototropismo e a identidade é colheita. A obra sustenta-se na premissa de que a autodescoberta é um ato heroico. Através de uma estética surrealista, Pulso desloca o olhar do espectador do “ser” estático para o “fluir” contínuo. É um convite à introspecção sensorial, onde o pertencimento não é um lugar onde se chega, mas o ritmo — o pulso — de uma jornada que nunca cessa de brotar.
QNTT N.1: VÍDEO; ISOPOR; ELÁSTICO; PVC E SAXOFONE
Pedro Gabriel Lima
2025
Performance interativa com vídeo
a obra se centra na noção de descontinuidade operada pela fragmentação e diferenciação das partes. É composta por vários “slides”, alguns explicativos da peça; outros indicativos do que aqueles do público que assumem a condição de intérpretes devem fazer; outros não possuem explicação ou significado.
QUEER AI HAS NO IMAGINATION
VIKKØNDER (Caio Victor da Silva Brito)
2023
Cinema VR / Videoarte 360 / Arte Crítica
QUEER AI HAS NO IMAGINATION é um filme-ensaio em VR360 e um dispositivo de contra-vigilância. Em uma era onde a Inteligência Artificial define o que é visível, esta obra investiga o que é sistematicamente invisibilizado. Através de uma metodologia de Prompt-Probing (sondagem via comando), o projeto submeteu IAs generativas de ponta (Midjourney, DALL-E) a testes de estresse, solicitando representações de afeto, cotidiano e celebração LGBTQIAP+. A obra situa-se na intersecção crítica entre a Estética Forense e os Estudos Críticos de Dados. A obra parte da premissa de que as IAs Generativas operam como “máquinas de conservadorismo visual”, baseadas no que Lev Manovich (2023) define como “cérebro probabilístico”: sistemas que, ao buscarem a média estatística nos datasets, eliminam a complexidade das identidades dissidentes.
QUEM ANDA PELO HORIZONTE?
Neanhy Gade
2025
Fotocolagem/montagem digital
O trabalho reside na investigação do olhar como mediador entre a pessoa e o espaço. O Farol da Barra, nesta obra, é resgatado de sua função náutica ou turística para ser apresentado como um “corpo-memória”: um observatório cujas frestas funcionam como lentes que revelam o que os corpos desconhecidos que percorrem a praia, a calçada, os prédios, como se o olhar curioso que espiu pelo forte pudesse atravessar o tempo. O argumento central explora a estética da fresta. O ato de espiar pelo forte sugere um desejo de intimidade com a paisagem, permitindo que o observador atravessasse a barreira do presente para alcançar a subjetividade dos “corpos desconhecidos”. Há um diálogo constante entre o peso da pedra (o forte, os prédios) e a fluidez do horizonte (o mar, o céu), criando um campo de tensão onde a cidade não é apenas um cenário, mas um organismo que respira e acumula histórias. A obra busca materializar o despercebido: a energia das presenças que percorrem a calçada e o eco das memórias que habitam o entorno. Sustenta-se, portanto, na ideia de que a paisagem só se completa quando atravessada pelo olhar curioso, transformando o registro geográfico em uma cartografia de permanências e ausências.
“QUANTO MAIS EU COMO, MENOS EU SINTO”
Helena Bohn
2025
Videoperformance
“logo de início, a obra se apresenta como superfície disponível – um corpo que pode ser tocado. colar adesivos sobre a tela não é apenas permitido, mas parte do próprio gesto da obra, que se abre ao acúmulo de interferências. situando-se entre tradições da natureza-morta e do retrato feminino, quanto mais eu como, menos eu sinto (2025) convoca esses códigos apenas para desmontá-los. na repetição de um gesto fútil emerge uma forma de irreverência: movimentos morosos, quase silenciosos, que recusam estar estáticos, se negam à pose. no atrito entre o que se mostra e o que se esconde, entre o código tradicional e sua paródia sutil. o vídeo-monitor torna-se superfície de contaminação, espaço sensível onde signos do consumo, da customização e do cotidiano se colam – literalmente –, deslocando o valor da imagem e abrindo brechas para uma outra forma de relação.”
Enzo Caramori
RISCANTES
Nathalia Leter
2026
Instalação
Em riscantes – termo que a artista toma emprestado de Edith Derdyk que o utiliza para nomear quaisquer materiais e instrumentos aptos a produzir marcas sobre uma superfície – a gestualidade é explorada na relação entre corpos que desenham. Cada RISCANTE, com sua anatomia e materialidade particular, desafia a mão a se moldar e descobrir modos de segurar, conduzir e produzir inscrições sobre a superfície do papel. Essas operações não apenas modelam o gesto, mas também resultam em uma certa qualidade e expressividade das linhas. Uma destreza específica nasce desse diálogo com o riscante, pois a mão que desenha com uma folha de embaúba não dança da mesma maneira que a mão que conduz um ninho de passarinho sobre o papel.
RITUAL DE DISSOLUÇÃO
Isabella Beninca
2025
Videoarte
“Ritual de Dissolução” é uma videoarte em animação 3D que parte da ideia de dissolver o indivíduo como centro absoluto. A obra acompanha figuras que se desfazem, colapsam, explodem, se fragmentam ou se transformam em outras matérias — água, vidro, fumaça, partículas. Cada imagem constrói um percurso de perda de forma e de reconstrução. O trabalho nasce da inquietação com o excesso de individualismo e com a pressão constante por identidade fixa, desempenho e coerência. Aqui, o corpo não é estável: ele racha, escorre, desaparece. Máscaras pendem ao redor de um rosto sem feições. Uma cabeça de vidro chora líquido fluorescente. Uma estátua quebra e se recompõe com pedaços coloridos. A dissolução aparece como um estado limite, mas também como possibilidade.
RUÍNAS/RUINS
AVRORA LEONNA SANTA-MÁXIMA
2026
Arte digital
Esta obra suscita importantes reflexões para os problemas geopolíticos e ecológicos da atualidade mais recente. Ao mostrar em composição as ruínas reais da Faixa de Gaza, Rafah, junto dos efeitos de colagem e decomposição digital criados pelas inteligências artificiais generativas, a imagem infere uma causalidade da guerra com relação a questões especulativas, quanto a simulacros, conjuntura política global, problemas ecológicos e o lobby das inteligências artificiais. Neste aspecto, a imagem presume questões relevantes e expressivas à poética contemporânea como, a guerra e o mercado especulativo de IA’s e novas tecnologias. O foco visual do cenário, as ruínas, atingem uma dimensão potencial radical e dramática. A imagem dimensiona ruínas desde o primeiro plano até o horizonte. A obra explora também o conceito de ruínas tanto da dimensão física real da atual guerra – ruínas do antropoceno, quanto o conceito de ruína do meio digital, presente na decomposição digital extrema em pixels, glitch e efeitos de deterioração computacional. Portanto, a imagem propagá a ampla sensação estética de ruínas que os sujeitos (ecológicos) estão submetidos no mundo contemporâneo.
S/TÍTULO DA SÉRIE CAIXAS DE VER.
Dirceu Maués
2026
Instalação in situ
Neste trabalho, o dispositivo fotográfico abandona sua função de câmera fotográfica; deixa de fixar imagens, com seus recortes de tempo/espaço, para retomar os potenciais de desejo pela apreensão do efêmero e transitório que sempre habitaram as imagens mágicas que se projetavam dentro da câmera obscura: experiência que (re)atualiza a imaterialidade e a virtualidade dessa imagem pré-fotográfica com a potencialidade do sentimento daqueles precursores e inventores que “ardiam em desejos”, na expressão de Daguerre, pela invenção da fotografia. O dispositivo torna-se então pré-individual, pré-fotográfico. A câmera obscura passa a ser um elemento de base na composição e construção de trabalhos como instalações e intervenções urbanas operando na paisagem da cidade de forma mais incisiva, integrando, de maneira única e singular, a sua estrutura de objeto ao espaço e à arquitetura do lugar onde é instalado, fazendo desta integração um lugar de experiência poética. Dependendo do tipo de empilhamento ou arrumação das câmeras no espaço urbano, é possível construir muitas formas ou configurações instalativas que provocam e envolvem o transeunte/observador.
SAMPLER
Daniel Pettersen
2025
Arte Gráfica
Em Sampler, a colagem opera como procedimento conceitual e formal para aproximar temporalidades, linguagens e arquivos. Fragmentos de registros da dança, originalmente criados para documentar o efêmero, são recontextualizados em diálogo com desenhos abstratos que evocam ritmo, deslocamento e tensão espacial. A obra investiga a dança como arquivo visual e o desenho como dispositivo de movimento. Os corpos dos bailarinos potencializam a leitura das formas geométricas, enquanto os desenhos reativam a expressividade dos gestos registrados. O trabalho se insere no campo das relações entre arte, memória e processos gráficos, propondo o arquivo como matéria plástica aberta à ressignificação e à reinvenção.
SANTA ANTI-NOMOFOBIA
Vitor Bárbara
2025
Instalação
Poder pelo controle do desejo, do medo, da vigilância e da cultural não é exclusividade do capitalismo de vigilância, muito menos do capitalismo. Essas formas de controle sempre foram utilizadas por diversas instituições da sociedade. Atualmente, capitalizado através da mineração dos dados em redes sociais, outrora esse poder também já foi conquistado através da força e narrativa de governos e também da religião. O cristianismo, sobretudo a igreja católica, utilizou-se da sua mitologia para colonização, controle populacional, instauração da performance e enriquecimento que perdura por milênios. Santa Anti-nomofobia propõe um golpe. Um malware de estética cristã, infiltrando-se nos meandros da cultura religiosa para colocar luz aos interesses das Big Techs e, consequentemente, do capitalismo de vigilância. Na convergência religião x capitalismo de vigilância estão a culpa cristã, questões de gênero, performance, vivência cíbrida e controle.
Hackeamento de imaginários.
SAPIENS
Alaôr Armeiro
2026
Pintura
A obra Sapiens retrata a jornada da humanidade desde a pre- história até a contemporaneidade, evidenciando a criação de meios para a sobrevivência, adaptação e transcendência. Ao justapor elementos como a escrita, a ciência (representada pela fórmula de Einstein) e a tecnologia digital, o trabalho propõe que a natureza humana é intrinsecamente ligada ao ato de projetar “artifícios”. A sustentação poética reside na subversão da lógica linear: na tela, o tempo não é uma flexão, mas um palimpesesto onde todas as conquistas da espécie estão presentes simultaneamente. O surrealismo da composição permite que o espectador perceba que o homem que pintava nas cavernas é o mesmo que hoje codifica o futuro; as ferramentas mudaram, mas o impulso criativo – a identidade única do Sapiens – permanece constante. A obra reafirma, assim, a identidade do artista como um observador que costura o tempo, transformando a história da espécie em uma narrativa visual mística e atemporal.
SERPENTE VERMELHA
Tassia Mila (gatopretopulando)
2026
Filme-performance
Linhas de Transbordamento e Corpórea-imagética, que propõem pensar o corpo como um território de imagens em fluxos, que se cruzam e se transformam. A pesquisa propõe uma reflexão situada em práticas experimentais que expandem a relação material entre corpo, som e imagem, espaço e tempo. Pretende-se compreender o corpo como mediador de fluxos sensíveis de criação, uma paisagem em constante transformação, onde corpos, sons e imagens se modulam mutuamente. A partir dessas ideias, penso a relação humana com a natureza pela perspectiva da arte e da minha origem indígena, bem como cosmovisões e cosmoaudições indígenas e afro-diaspóricas do Brasil. Venho desenvolvendo peças sonoras e visuais que traçam essas relações: formas humanas, animais e trans-humanas de interação e a disposição do meu próprio corpo e voz para ativá-las e ser um canal de transmissão sonora-imagética, aliando o cinema experimental nessa prática. Entre a composição, improvisação e performance, o corpo como dispositivo capaz de ativar temporalidades dissidentes, articulando som, imagem, memórias e devaneios.
SERPENTE-RIO
insiranomeaqui (Yvy Alves Cavalcante)
2025
Videoarte
“Serpente-Rio” é um ato de denúncia e de chamamento. É uma alegoria sobre as consequências do ecocídio, da destruição dos biomas e da arrogância humana. A obra sugere que, ao rompermos o laço sagrado com a natureza, não nos tornamos seus senhores, mas sim seu alimento. A “Grande Eclosão” que se anuncia pode ser tanto o despertar catastrófico dessa força adormecida quanto, talvez, a esperança de um novo nascimento a partir das cinzas do “sinhô” devorado. É uma obra que exige ser vista, ouvida e sentida na pele, pois fala de um destino que é, acima de tudo, coletivo.
SGD
Leona Machado
2025
Escultura em mídia eletrônica / Arte computacional
Os trabalhos da série SGD são frutos de uma pesquisa mais ampla acerca da formação de verdades de sexo-gênero-desejo. A investigação conceitual de SGD percorre uma hipótese irônica de que, se um modelo binário de sexo-gênero-desejo existe, seus fundamentos lógicos podem ser simulados por circuitos digitais, e suas inferências, computadas por funções booleanas. Em SGD, cada dígito indica tanto o estado atual de uma parte do circuito quanto uma variável da função computada, uma vez que o funcionamento do circuito é inteiramente concebido dentro de um sistema lógico para proposições do tipo “Sexo-Gênero-Desejo’ formulado pela artista em sua pesquisa de doutorado. A ironia subjacente a estes trabalhos busca trazer à tona as limitações da lógica binária, assim como formular tais questões identitárias por um viés lógico-computacional, que se coloca para além da natureza e aquém da cultura. Além disso, a investigação de SGD é inteiramente atravessada por um estudo das formas fundamentais, de uma materialidade e de uma lógica irredutível à computação, que são ocultadas pelas mais diversas caixas-pretas. Por meio da manipulação direta do circuito e de uma concepção formal das bases lógicas, SGD apresenta tais computadores rudimentares como proposições para se pensar uma materialidade da lógica, sua incidência sobre os corpos e as estruturas de poder que constrangem as condições de verdade do sexo-gênero-desejo.
SILENT FALL VR
Karolina Cykowska-Halczuk (Karolina Joanna Cykowska-Halczuk)
2025
Virtual Reality Installation / Immersive Environment / Digital Aesthetics
“Silent Fall VR” is an ontological inquiry into the state of digital precariousness. Rather than offering a traditional immersive escape, the work explores the friction between human perception and the volatile nature of computational space. The environment operates on a logic of non-fixity. By allowing architectural forms to continuously shift and dissolve across all axes, the work mirrors the contemporary experience of “liquid reality.” It is not a fall in the physical sense, but a metaphorical descent into a space where the coordinates of identity and structure are no longer guaranteed. “Silent Fall VR” functions as a liminal laboratory. It asks: how do we orient ourselves when the ground – both literal and metaphorical – is a constant flux of data and decay? It is an invitation to inhabit the glitch, finding a new kind of equilibrium within the unstable.
SILLY BOYS
Fernanda Görski
2025
Web arte
A obra Silly boys é uma web arte produzida em html hospedado no site neocities na qual utilizo diferentes elementos (analógicos e digitais) para criar os componentes de cada página. O trabalho propõe uma navegação através de pequenos hyperlinks espalhados em cada página, possuindo um layout simples, cores saturadas e navegação caótica, opondo-se à estéticas limpas, organizadas e controladas que existem atualmente na internet. A web arte busca discutir questões à respeito de produtividade desenfreada e discursos hegemônicos os quais são amplamente difundidos a partir de grandes empresas no Vale do Silício. Crio um jogo de palavras em inglês entre os termos “sili” (silício) e “silly” (bobo), fazendo uma referencia à meninos bobos controlando grandes empresas e possuindo muito poder. De acordo com Arlindo Machado (2002, p. 24.) dentro do conceito de artemídia, cabe ao artista o desafio de apropriar-se do dispositivo tecnológico ao mesmo tempo que contrapõe-se ao projeto industrial já existente. Neste trabalho busco indagar questões sobre oposição à sistemas controlados e pensar de forma crítica sobre como criar trabalhos buscando possíveis escapes poéticos à estruturas e discursos hegemônicos. Busco estabelecer uma conversa com o teórico Queer Jack Halberstam em A Arte Queer do Fracasso, quando ele faz a pergunta: ” Então qual é a alternativa? Essa pergunta simples revela um projeto político, implora por uma gramática de possibilidades (…) e expressa um desejo básico de viver a vida de outra forma”. (HALBERSTAM, 2000, p.20). Sem o objetivo ou a pretensão de encontrar uma resposta concreta, trouxe este questionamento como um norte para a obra.
SIMULACRANDO
Alexandre De Nadal
2025
Videoarte
Simulacrando (2025) apresenta um conjunto de pensadores que refletiram, em diferentes contextos, sobre as relações entre imagem, verdade, representação, realidade e simulação. Platão, Guy Debord, Jean Baudrillard, Gilles Deleuze, Michel Foucault, Vilém Flusser, Pierre Lévy, Marilena Chauí e Nick Bostrom são convocados a falar sobre um problema comum, atravessando séculos de pensamento e sendo reinscritos no presente por meio de uma interface digital que simula um videogame com estética 16 bits.
SPINU VIVU II
Sandro Bottene
2025
Fotoperformance
A dor é uma sensação inerente à existência humana, atestando e alertando o corpo vivo. Ela se configura como um vínculo íntimo e inescapável, acompanhando-nos do nascimento à morte. A experiência da dor é subjetiva e se insere em um contexto biopsicossocial, abrangendo dimensões biológicas, psicológicas e sociais do indivíduo. No que se refere os métodos de pesquisa, este trabalho parte de ações fotoperformáticas realizadas com e pelo meu próprio corpo. Ao criar dores poéticas, exponho minha vivência com o sofrer, revelando, simultaneamente e inevitavelmente, meu próprio corpo. Na Série Película-dor, o processo poético busca evocar a sensorialidade a partir da pele, limite sensível do nosso corpo com o mundo. Byung-Chul Han reflete sobre essa relação ao afirmar: “Dor é distinção. Ela articula a vida. Órgãos corporais se fazem conhecer primeiramente pelo seu próprio dialeto de dor. A dor marca os limites, destaca distinções. […] Dor é realidade. Ela tem um efeito de realidade. Percebemos primeiramente a realidade na resistência que dói” (Han, 2021, p. 61-64). A dor pode, por vezes, nos paralisar, mas integra nosso corpo e ativa nosso pensamento. Pensar é sofrer, e sofrer também é viver.
STAR SYSTEM
Mirele Brant
2018-2026
Instalação de videoarte
O conceito do feminino decadente.
A instalação de Mirele Brant contesta a bela imagem: recatada, romântica, entretida com futilidades, com conduta aparentemente impecável, de certas artistas e suas personagens criadas pelo cinema hollywoodiano, nos anos 30, 40 e 50 do século XX.
A representação estereotipada que circularia na mídia acerca da vida pessoal das atrizes e o perfil de suas personagens não estaria de acordo com as particularidades vividas por cada uma, ou seja, não traduziria a diferença e evidentemente não apresentaria a forma pela qual essas mulheres reconheceriam a si mesmas inseridas na cultura. Os estereótipos reduzem e simplificam as personalidades femininas, que passam a ser compreendidas mediante características tidas como “naturais”, “fixas” e de fácil assimilação no imaginário da população em geral.
Os televisores expostos na instalação evidenciam o poder de difusão imediata da imagem, assegurado pelas tecnologias de comunicação, que, por sua vez, determinariam a ampliação do alcance dessas imagens.
O corpo da mulher foi e ainda é palco da segregação racial, política e social; palco da violência, dissimulação, autoritarismo e subordinação. Contudo, a resistência sempre existiu na figura de certas mulheres que por coragem e ousadia permitiram que seus corpos transbordassem sobre si mesmos, de modo a se representarem no campo intelectual, moral e artístico.
A instalação Star System dá visibilidade aos estigmas enraizados e coloca ao seu público um questionamento acerca dos padrões de beleza e conduta que reprimem a mulher ainda nos dias de hoje. Mediante a crítica exposta na obra, propõe-se, portanto, uma reconstrução positiva da identidade feminina, não mais relacionada a aspectos de inferioridade e passividade.
Alice Lino – Profa. adjunta no Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Mato Grosso.
Doutora em Estética Contemporânea pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da USP.
SUSPENSÃO
Liel Gabino (Liel Gabino)
2025–26 (inédito)
Instalação
A instalação utiliza funis de separação – vidrarias tradicionalmente empregadas em procedimentos de extração líquido-líquido – como dispositivos de observação de um sistema físico em regime instável. No contexto laboratorial, o funil organiza a distinção entre fases imiscíveis por diferença de densidade, conduzindo à clarificação e à separação. Aqui, contudo, sua geometria cônica e sua transparência são mobilizadas para tornar visível um processo distinto: a permanência de uma fase sólida dispersa em meio aquoso. Suspensão nameia esse intervalo mensurável e observável do vir-a-ser-forma.
TANGERINE
Samy Sfoggia
2025
Videoarte
A obra de Samy Sfoggia fundamenta-se na materialização do onírico, utilizando o corpo como território fértil onde a imaginação, representada por sementes de bergamota, subverte a biologia e germina em realidade física. Sob uma estética de estranhamento surrealista, o argumento poético explora a dissolução do “eu” através da fragmentação visual e do colapso da lógica espacial, sugerindo que o inconsciente é uma força expansiva que inevitavelmente transborda e distorce o mundo concreto ao seu redor.
TELA EM TRANSE
Nélio Costa / Pulsatrix
2026
Performance Tecnológica
A projeção em escala arquitetônica convida o observador a uma imersão contemplativa, questionando a fronteira entre o micro e o macro, o caos e a ordem, a criação humana e os códigos da natureza.
TEMPO LUZ
Gabriel Santana
2026
Instalação
Tempo Luz trata da noção macro do tempo do universo de maneira poética e em escala humana. Desta forma, a instalação ao capturar e sobrepor as imagens ao vivo, da sala de exposição e de quem passa na sua frente, simula como funciona os nossos olhares voltados para as estrelas. Estamos sempre a encarar o que se foi, mas nunca o presente. Contudo, nesta obra vemos humanos em seu mundo, logo uma nova camada de sensação para o tempo aqui é atribuída. Seres vivos não veem o tempo passar como imagens sobrepostas, não experimentamos o tempo como uma dimensão do espaço, sobrepondo cópias levemente diferentes do mundo. Nós sentimos o tempo, percebemos pelos ritmos metabólicos internos, nosso relógio biológico. E ele pode ser alterado por emoções e condições ambientais: na agitação pode parecer passar rapidamente e na calmaria pode parecer passar vagarosamente. Assim como a velocidade da luz muda a percepção de tempo, a velocidade dos nossos processos biológicos também altera nossa percepção temporal.
TETRAFÁRMACO
Marina S. Alves (Marina Silva Alves)
2021
Jogo digital
As sete imagens que compõem a interface de cada fase, são de trabalhadores registrados no século XIX pelo fotógrafo Christiano Junior em formato de cárte de visitè. A adaptação das imagens de domínio público de Christiano compõem a obra de forma provocativa. Atualizadas para “a partir de 2020” com a existência de uma pandemia global (Covid-19) e uma enxurrada de QR Codes, Links e Aplicativos em nossas vidas a obra nos provoca: Quais os corpos têm sido mais prejudicados pela doença e pela desigual virtualização da vida nos diferentes tempos históricos? No jogo, algumas peças vão nos ajudar a passar por este caos e passar de fase: cultivar os quatro remédios da alma.
TRIUNFOR MAQUÍNICO
Doug Firmino
2025
Videoarte
O vídeo animado propõe discorrer os aspectos visuais na formulação de interfaces de sistemas computacionais, refletindo questões de como os dispositivos tecnológicos nos leem (FLEXOR 2021). Partindo desse pressuposto a utilização da prática do desenho figurativo é direcionada para a composição e a subversão dos sistemas que utilizamos na atualidade, ampliando as noções de ateliê criativo. Assim, a linguagem visual do desenho se apresenta de modo multifacetado, como: código animado, janelas e barras de carregamento que compõe a interface e, também por meio das interações das figuras representadas e intervenções com texto e os registros videográficos. Enfatizando por meio de uma narrativa, como os sistemas visuais processam os nossos e hábitos e rastros.
TROPICAL SESSIONS
Cabana
2025
Arte sonora
No infra-ordinário da vida, isto é, naquilo que comunica sensações ambíguas e se inscreve no “que acontece quando nada acontece” surge este trabalho que faz de um espaço social despersonalizado o território de uma prática de escuta, organizando-o dentro de um método que aposta na potência de um campo sensível imediato que se dá entre as fissuras do cotidiano.
No calor dessa geografia em crise, além de um modelo de sociedade falido, encontra-se um campo de experiências que tangencia forças quase invisíveis e inaudíveis que a todo tempo transbordam às quadriculações espaciais as mais exíguas. São esses os elementos de um processo ainda em progresso onde o que está sendo cultivado é o exercício de uma percepção fina sobre as menores coisas, sobre pequenas imagens a serviço da montagem de um painel abstrato onde concorrem ritmos e sensações que dialogam com certo modo de transitar por uma paisagem a princípio desertificada, mas geologicamente aberta. A ideia é explorar uma perspectiva que traz consigo o devir de um tempo histórico que exige resiliência: já que denunciar os desmandos do conjunto das potências ocidentais não têm surtido qualquer efeito (e dada desproporcional relação de forças que nos encontramos em relação ao norte global), ao menos que se garanta algum espaço para a fermentação de uma revolução por vir, mesmo que não estejamos aqui para testemunhá-la.
TUDO AO MESMO TEMPO AGORA
producciones invertidas (Nair Gramajo)
2025
Videoarte
TUDO AO MESMO TEMPO AGORA es una iniciativa artística surge de mi investigación audiovisual Observaciones Micropoeticas Microbianas Antiextractivas, sobre microscopia, cine experimental ambiental y microalgas, llevada a cabo en la Laguna de Maricá en Rio de Janeiro en Brasil durante el mes de octubre del año 2025. Fue posible en colaboración con las diversas comunidades humanas y no humanas que allí habitan: la comunidad cultural de pescadores, la Aldea Indígena Guaraní Mata Verde Bonita, aves y peces. La experiencia de residencia se realizó en compañía de A la deriva lab dirigida por Sabina Simón (Rio de janeiro) en el marco del intercambio con el NANO de la Universidad Federal de Rio de Janeiro y el Programa de Arte, Ciencia y Tecnología Presente Continuo de Buenos Aires, Argentina.
UNNATURAL – OF HUMUS AND ARTIFACT
Sandrine Deumier
2023
Interactive fiction, game
This project is an attempt to answer the question of what kind of anticipatory fictions can be imagined to help steer current time towards viable near-futures, where living would mean sharing the world-with.
VAGALUMENS
1mpar (Henrique Roscoe)
2025
Instalação
Em um momento onde estes insetos correm risco de extinção devido ao excesso de luzes artificiais, poluição, uso de pesticidas e perda de habitat, “Vagalumens” propõe uma reflexão poética sobre a simbiose entre o natural e o artificial, questionando os limites de nossa compreensão de vida e autonomia. Ao invadir o espaço arbóreo com sua presença eletrônica, a obra cria um diálogo inesperado, onde a tecnologia não subjuga a natureza, mas a celebra e expande, revelando novas possibilidades de coexistência. A experiência de caminhar sob essa constelação artificial de luz e som é um convite para desacelerar, observar e se reconectar com a percepção do tempo e do espaço, imersos em um espetáculo onde a distinção entre o que é vivo e o que foi criado se dissolve na penumbra.
VIGÍLIA
Vitória Porto (Vitória Porto de Castro)
2025
Vídeo-instalação
Partindo de experimentações entre imagem, escrita e arquivo, a poética do vídeo tem como ponto de partida os deslocamentos da palavra vigília. Sua intermitência com o sono é um movimento vital. Em 24/7, Jonathan Crary dirá que essa intermitência é minada pelo funcionamento ininterrupto do capitalismo: as distinções entre dia e noite, luz e escuridão, atividade e descanso. Os sistemas globais formam um “clarão” que instaura uma zona de insensibilidade. Dessa intermitência, a construção poética também é pensada nas imagens que transitam entre o sono e o estado de vigília; no sonho como transmissão. Ainda, na tradição cristã, a vigília é a renúncia ao sono para estar acordado em devoção: a intimidade entre esse sentido da palavra e as imagens tem relação com minha pesquisa em torno do arquivo e da memória. Provetá é uma comunidade majoritariamente evangélica, paisagem de várias fotografias com as quais trabalho, de onde vem minha família paterna e tradições que se mantiveram no meu ambiente familiar.
Com planos fixos e dilatados, a montagem encontra no tempo expandido uma maneira de trabalhar com essa intermitência. Podendo produzir sonolência ou outras percepções em sua lentidão, se manter em vigília pode ser mais difícil. Esse tempo dilatado também pode ser o tempo necessário para perceber o ritmo de uma paisagem: o que ela pode nos dizer? Como convoca nosso corpo? Esse interesse se expande para a dimensão instalativa do vídeo, pensando em como essas percepções podem acontecer no espaço expositivo. A proposta da vídeo-instalação para a exposição PANORAMA 7 é a exibição de Vigília em looping numa TV tubo de 14 ou 20 polegadas (disponibilizada por mim) que ficará sobre uma mesa com uma cadeira à frente para as pessoas se sentarem, localizada num ponto menos iluminado possível do espaço. A proposta da montagem é que o som seja externo, podendo ser adaptada para o uso de fones de ouvido.
VÍVIDOS SONHOR
Helena Zimbrão, Igorland e Veronica Cerrotta
2024
Performance
Na contemporaneidade, um volume intenso de imagens é produzido e reproduzido em altíssima velocidade. Com a mesma rapidez, essas imagens são editadas e descartadas. Quando o dia acaba, fechamos os olhos e as telas se apagam. Nesse momento, emanam vividamente novas paisagens visuais: os sonhos. Nesse projeto, mergulhamos em acervos de slides fotográficos analógicos que registram um passado ao qual não pertencemos, mas de alguma forma nos afetam. A partir de rostos, paisagens, memórias, convocamos o público para fabularmos juntos em um sonho compartilhado.
VOCÊ PRECISA VER ESSE STORY SUPER DIFERENTÃO
Coralina De Sordi
2025-2026
Site specific
O trabalho consiste em um projeto, uma série, que iniciou na exposição BAR – Burocracia Ao Reverso (2025), realizada pelo Ateliê 397 e o xow.rumi/ Capacete. Para a exposição mencionada, realizei uma série de vídeos de influencers divulgando a exposição, criados por meio de Inteligência Artificial. Os vídeos foram publicados no formato de Stories na semana anterior à abertura da exposição, um por dia, e, no dia do evento, foi postado um Reel que reúne trechos desses mesmos Stories. Todo o material está disponível na conta @youlookgreat.studio no aplicativo Instagram, criada seguindo os moldes de uma agência de criadores de conteúdo, de maneira irônica, mas dedicada exclusivamente à produção de influencers gerados por Inteligência Artificial.
WHAT IS EARTH WITHOUT ART? JUST A ROCK.
Anna Augusto
2026
Colagem
A obra “What is earth without art? Just a rock.” se baseia numa reflexão sobre a importância da arte na humanidade, no sentido de que a arte esteve presente como forma essencial de expressão desde os primórdios da existência humana, como por exemplo, por meio das pinturas rupestres. Além disso, a obra não abrange somente a arte em sua manifestação visual, mas convida o observador a pensar que a arte pode se fazer presente por meio da escrita, da fala, do audiovisual, da música e da tecnologia.
Sem a Arte, a Terra seria apenas uma porção de massa geológica inerte no meio do espaço, na qual não haveria nada além da exploração excessiva dos recursos naturais de forma desenfreada. Por isso, sem a Arte não haveria humanidade, porque desde que os humanos são humanos a arte esteve presente em nosso cotidiano, seja para promover a comunicação de grupos, seja para denunciar algo, seja para apreciar ou até mesmo para preservar a memória de um povo.
Quando dizemos: “What is earth without art? Just a rock.” não nos referimos a Arte somente no sentido de promover o belo, mas Arte no sentido da capacidade de unir o belo e o sublime, de unir a luz e a escuridão, de saber encantar, mas ao mesmo tempo saber mobilizar opiniões, porque a arte pode ser tudo.